Título: Coração sem medo
Autor: Itamar Vieira Junior
Série: Trilogia da Terra
Páginas: 304
Editora:Todavia
Lançado no dia 13 de outubro de 2025
Resumo
O livro conta a história de Rita Petra. Traumatizada porque, na infância, perdeu os irmãos menores em um córrego que os levou quando ela era responsável por eles, sua avó a enviou para trabalhar na cidade.
Ela teve três filhos, cada um de um pai diferente.
O mais velho, Cid, quando ia encontrar a namorada, é confundido com um bandido por ser negro, e policiais o torturam e desaparecem com ele.
Rita, em vez de ficar em silêncio ou com medo, enfrenta as autoridades e os desafios: coloca a boca no trombone, vai à mídia e busca outras autoridades, exigindo descobrir os nomes dos policiais culpados. Depois de identificá-los, vai atrás de justiça.
Após anos lutando, sendo ameaçada, investigando por conta própria, lidando com suas limitações sociais e seguindo pistas falsas, ela descobre que o filho deixou uma filha com a namorada.
A garota havia fugido do bairro não por medo do desaparecimento do namorado, mas por vergonha de estar grávida.
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Resenha
O livro de Itamar Vieira Junior que fecha a série *A Terra* é diferente dos outros dois.
Apesar de já fazer muito tempo que li os outros livros, lembro que o maior ponto positivo deles, assim como deste, é a escrita única do autor, que, mesmo sendo bem diferente, continua extremamente visual. Conseguimos enxergar cada cena.
A escrita dele é diferente porque é quase narrada como um pensamento dentro da cabeça do personagem. Algo sem uma linha totalmente linear: ele vai e volta como uma lembrança.
Mas o autor trata isso com tanto cuidado que conseguimos ver as cenas com precisão. Parece um filme em que assistimos aos flashbacks.
Nos outros livros ele faz isso brilhantemente. Mas, neste, ele trata com maestria. Não sei se é porque o roteiro é mais claro ou mais fácil de definir.
É uma história mais próxima do nosso dia a dia. Se passa em cenários que vivemos: mercado de trabalho, ônibus, setores pobres.
Além da visualidade das cenas e da clareza do roteiro, temos também o emocional: o sentimento de injustiça, que está tão próximo da gente.
Tenho lido mais livros de investigação criminal ultimamente, e este é exatamente isso: uma investigação criminal muito bem construída, só que usando termos, localidades e sentimentos que conhecemos, com as mesmas limitações que nós vivemos na justiça brasileira.
Logicamente, é revoltante.
Mas as cenas e os diálogos são fortíssimos. Cada detalhe emocional nos faz visualizar tudo como se fosse uma cena dramática de novela das oito do Manoel Carlos.
Me emocionei e chorei de verdade, me vendo em situações que nunca pude me colocar: como uma mãe solteira, negra, pobre. Uma situação que, realmente, um homem branco com boa qualidade de vida só consegue compreender como uma pequena migalha no mundo dos livros.
Vi como o racismo machuca. E como o “racismo reverso” não existe mesmo. Que a pessoa negra deve, sim, desconfiar de cada pessoa branca que aparece, porque isso pode significar sua sobrevivência.
Meu coração doeu muito com os relatos — aparentemente reais — de mães que perderam seus filhos na mesma situação.
Não consegui me ver nas cenas dela enquanto lia ao lado dos meus filhos, abraçando e beijando eles.
Acho que a revolta de policiais que lêem um livro desses, dizendo que “nem todo policial é assim”, deveria dar lugar à consciência de que, se existe ao menos um caso como esse, livros assim são importantes para desmistificá-lo e alertar.
Pode até ser que, em alguns casos, seja um bandido. Mas e os que não são? Não vale a pena lutar por eles?
E não só pelos filhos. Porque quando morre um trabalhador, uma pessoa honesta, morre também uma mãe, um pai, um irmão, uma esposa, filhos.
A trilogia *A Terra*, no geral, traz a realidade de um povo que, por gerações, é tratado com injustiça. Itamar traz essa injustiça para a frente de um mundo que parece ter esquecido ou passado a considerá-la irrelevante.
Ainda somos tratados com injustiça pelo mundo. E temos que lutar: o negro, o pobre, a mulher, o trabalhador.
E às vezes temos meios de lutar, mas somos enganados por um monopólio chamado “povo rico”, que consegue manipular o pobre para fazê-lo pensar que não tem direitos.
Mas temos direitos, sim. Nem que seja no mundo espiritual — como também é narrado na história de Itamar Vieira Junior.
Nota: 4,5⭐




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