A chave mágica



Querido leitor,


A nostalgia tomou conta de mim neste final de semana, trazendo para meus filhos o filme da minha infância: A Chave Mágica (A Chave Mágica).



E, como podem imaginar, isso me trouxe uma nova visão — e algumas surpresas — vindas do meu olhar adulto sobre o filme, além das percepções dos meus filhos, que enxergaram coisas que eu não tinha visto ou entendido na época em que o assistia repetidas vezes, nas minhas tardes de seis ou sete anos, na Sessão da Tarde ou no Cinema em Casa.


O filme conta a história de Omri, um garoto de nove anos que recebe da mãe um armário e uma chave antiga que pertenceu à avó.


Ao trancar o armário com a chave, tendo colocado dentro dele um brinquedo de um indígena, o boneco ganha vida.


Omri cria um forte vínculo de amizade com o indígena, Urso Pequeno, entendendo que ele veio de outro tempo, quando os povos indígenas ainda dominavam territórios nos Estados Unidos. Ao ser incorporado ao brinquedo, sua vida passa a animar aquela miniatura.


As coisas se complicam quando seu amigo Patrick descobre o segredo da chave mágica e decide participar, trazendo à vida um cowboy de brinquedo chamado Boone.


Pequeno Urso e Boone, vindos de épocas passadas e culturas rivais, entram em conflito, confrontando suas diferenças culturais enquanto precisam conviver no quarto de Omri, escondidos dos pais e irmãos — e ainda correndo perigo por causa do terrível rato do irmão.



Omri começa a perceber que manipular a vida daqueles pequenos seres não era certo. Eles tinham suas próprias histórias, suas próprias vidas. E ele estava brincando de ser Deus.


A convivência entre o indígena e o cowboy não seria tão simples, até porque, historicamente, eram inimigos.



Isso fica evidente quando, ao assistir a um programa de TV sobre massacres indígenas cometidos por brancos, Urso Pequeno se emociona e acaba atacando Boone com suas flechas.


Quando Boone é gravemente ferido, Omri tenta usar novamente o armário para trazer um médico da guerra em forma de brinquedo, mas descobre que a chave caiu no assoalho do quarto.


Urso Pequeno parte então em uma jornada arriscada para recuperar a chave, enfrentando o rato.


Com a chave em mãos, conseguem salvar Boone. Porém, Omri entende que precisa devolver seus amigos às suas vidas originais, transformando-os novamente em brinquedos.


Resenha

O filme, inspirado na série de livros de Lynne Reid Banks (cujo primeiro volume é The Indian in the Cupboard, que com certeza quero ler), desta vez me ensinou sobre o poder da cultura de cada povo e como transportá-los para um lugar que não é seu habitat natural pode causar conflitos.


Vejo muito disso no meu trabalho. Pessoas de diferentes regiões do país carregam suas heranças culturais — regionais e familiares — e isso gera situações boas, mas também tensões, como no filme.


Ver a cultura indígena norte-americana retratada de forma sensível foi muito positivo, ainda que em espaço limitado. Imagino que nos livros isso seja aprofundado.



Os efeitos especiais, para a época, são muito bons.


Meu filho Leony percebeu algo que eu não havia notado na infância: a magia está na chave, não no armário. E isso abre inúmeras possibilidades. Imagino quantas teorias poderiam surgir a partir desse poder.


Nós nos perguntamos: o que aconteceria se trancássemos e destrancássemos uma casa cheia de pessoas com essa chave? Todos virariam brinquedos?


O temor de Omri ao perceber que estava “brincando de Deus” me pareceu extremamente filosófico. O peso desse poder é assustador.


Quando crianças, fazemos isso com nossos bonecos. Depois, eu mesmo passei a fazer isso escrevendo histórias. Autores e crianças, criando mundos e destinos, não seriam também pequenos deuses criativos?


E se nós mesmos formos parte do universo imaginado por uma criança brincando?


Revi esse filme de forma profundamente filosófica. E o mais bonito é que consegui enxergá-lo assim graças a uma menina de dez anos e um menino de sete.


O final é lindo, quando Omri se imagina no mundo de Urso Pequeno.


Fico imaginando os próximos livros da série. Será que Omri algum dia consegue visitar o mundo do indígena?


Se não acontecer, talvez seja uma história que eu escreveria — exercendo, por um instante, meu direito de ser “Deus”, como Omri.


Nota ⭐ ⭐ ⭐ 

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