Senhor das Moscas - William Golding

Querido leitor,


Li o livro Senhor das Moscas. Minha curiosidade por essa obra surgiu por indicação do meu irmão, em seu grupo de resenhas. E agora, após finalizar O Explorador, de Katherine Rundell — que tem uma temática que julguei parecida, de crianças se virando sozinhas, perdidas no meio da selva — resolvi dar uma chance a ele.


Mas eu já sabia que, diferente de O Explorador, o autor, William Golding, queria mostrar que crianças sozinhas, em isolamento, não dariam tão certo quanto a maioria dos autores costuma retratar.



O livro apresenta Ralph, que, junto de várias outras crianças, sobrevive a uma queda de avião em uma ilha deserta. Eles precisam se virar sozinhos.


No início, a sociedade criada por eles — com Ralph e seu amigo Porquinho tentando liderar — parecia dar certo.


Eles usavam uma concha marítima para organizar quem podia falar nas reuniões e mantinham uma fogueira acesa para cozinhar, se aquecer e gerar fumaça, na esperança de serem resgatados.


Mas a maldade presente no ser humano começa a emergir dentro das crianças, à medida que essa sociedade se desenvolve.


O apelido “Porquinho”, dado ao próprio amigo, já demonstra que as regras criadas com mais sensatez não seriam respeitadas.



Por mais que Porquinho demonstrasse que suas ideias poderiam mantê-los seguros e aumentar as chances de resgate, outro garoto, Jack, passa a influenciar o grupo, levando as crianças a um comportamento mais selvagem, aparentemente sem regras, focado mais no instinto de caçar do que na sobrevivência organizada.


Isso começa a gerar conflitos entre Ralph e Jack.


A ideia de um monstro na ilha faz com que as crianças se aproximem ainda mais de Jack.


Era mais fácil abraçar o medo e agir de forma selvagem contra um inimigo imaginário do que manter a razão diante do desconhecido.


O “monstro”, na verdade, se revela como uma ilusão — algo compreendido apenas por um dos garotos, Simon, que acaba sendo morto pelos próprios colegas, dominados pelo medo.



Esse é o ápice da ruptura entre razão e selvageria. A negação do que fizeram transforma a maioria em selvagens, isolando Ralph e Porquinho.


Eles ainda tentam trazer o grupo de volta à razão, mas isso leva ao ponto máximo da barbárie: a morte de Porquinho.


Ralph passa a ser caçado.


Ele só não morre porque, durante a perseguição, os meninos colocam fogo na floresta — e a fumaça acaba sendo vista por marinheiros, que chegam para resgatá-los.


O livro traz uma visão dura e desconfortável sobre a perda da inocência infantil e confronta a ideia, muitas vezes idealizada, de que crianças são naturalmente boas.


O autor constrói, desde o início, mesmo nas atitudes mais sutis, a ideia de que, em situações extremas, crianças não conseguiriam se organizar de forma tão racional e eficiente quanto muitos acreditam.


Ainda assim, acredito que, se fossem mais como Porquinho, talvez conseguissem. Mas, como acontece frequentemente, a inteligência sem liderança não é suficiente.


A leitura inteira incomoda. Cada página parece tirar um pouco da esperança.


Ralph, como protagonista, não é alguém que cativa. Sua falta de empatia com Porquinho incomoda e frustra.


Inclusive, o fato de o autor nos fazer usar o apelido “Porquinho” o tempo todo reforça esse desconforto — como se fôssemos cúmplices.


Esse é apenas um exemplo de como o autor utiliza recursos narrativos para causar incômodo de forma intencional.


As descrições da ilha, apesar de extensas, não tornam a leitura cansativa. Pelo contrário, ajudam a criar uma sensação de isolamento e até de claustrofobia.


Há momentos quase psicodélicos, mas todos contribuem para construir a atmosfera da história.


Mas afinal, o que o autor quer dizer?


Talvez a mensagem mais evidente seja: crianças precisam de orientação. Elas não estão prontas para enfrentar o mundo sozinhas.


E também vemos como Jack consegue manipular os outros. No fundo, elas ainda querem brincar. Mesmo no caos, continuam sendo crianças.


Isso me faz refletir sobre como, muitas vezes, julgamos o comportamento infantil sem entender suas necessidades.


Nós, adultos, criamos uma sociedade cheia de regras, acreditando que tudo está sob controle.


Mas será que estamos tão distantes do caos?


Curiosamente, não foi a fogueira organizada de Ralph que os salvou, mas o incêndio causado no desespero.


Isso não valida o caos — mas faz pensar.


No fim, fica uma mensagem incômoda: são crianças. E justamente por isso, precisam de nós.



 Nota :⭐⭐










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