The Mystery of The Cupboard (O mistério do armário) - Lynne Reid Banks


Querido leitor,

Chegando ao quarto volume da série The Mystery of the Cupboard, da série The Indian in the Cupboard, conhecida no Brasil como O Indígena no Armário ou A Chave Mágica, de Lynne Reid Banks, me deparo com a autora utilizando uma fórmula completamente diferente dos outros livros.

Ela abandona em grande parte a história mais infantil que nos apresentou Omri e seu fantástico armário com uma chave mágica capaz de transformar brinquedos em pessoas reais que viveram no passado.




Desta vez, ela nos traz a história de Omri indo morar em uma casa no interior, herdada por sua mãe de um tio que morreu.

A mudança chega em boa hora, depois do tornado que destruiu a antiga casa — consequência das peripécias de Omri e Patrick ao abrirem o baú mágico que funcionava como um portal no tempo.

Nessa nova casa no interior, Omri descobre o diário de uma ancestral chamada **Jessica Charlotte Driscoll**, que criou o armário mágico e a chave, revelando assim a origem de toda a magia da série.

Mas o livro surpreende por apresentar uma história adulta, séria e dramática.

Jessica tinha um dom mágico de prever o futuro e, por querer ser atriz, abandona as convenções da sociedade para viver uma vida à parte, sem família e sem o respeito social da época.

Ela sentia muita inveja da irmã Maria, que seguiu o caminho tradicional, casando-se, tendo uma filha e conquistando uma posição respeitável na sociedade.



Mesmo assim, Jessica aceitava conviver com a irmã durante a infância de sua sobrinha Lottie.

Jessica era profundamente apaixonada pela sobrinha, quase substituindo nela o amor do próprio filho, que não gostava da mãe por ela escolher viver fora das normas sociais.

Mas, quando Lottie começa a se tornar mocinha, Maria percebe que a presença da irmã poderia prejudicar a reputação da filha na sociedade e pede que Jessica se afaste.

Isso causa uma grande revolta em Jessica.

Antes de se despedir da sobrinha, decide roubar os brincos valiosos da irmã como forma de vingança.




Porém Maria acredita que foi Lottie quem roubou as joias. Revoltada com a acusação, a menina sai correndo pela rua. Seu pai, Matthew, corre atrás dela e acaba sendo atropelado e morto.

Jessica passa o resto da vida isolada na casa onde Omri agora mora.

E o armário mágico? Onde ele entra nessa história?

O filho de Jessica, Frederick, vai estudar longe da mãe e se torna um empresário de sucesso no ramo de soldadinhos de chumbo.

Ele prospera até a época da Segunda Guerra Mundial quando precisa transformar sua fábrica para produzir armamentos de guerra em vez de brinquedos.




Isso abre espaço para que os brinquedos de plástico substituam os de chumbo.

Frederick fica revoltado com essa mudança, pois considerava os brinquedos de plástico de qualidade inferior.

Vendo o filho adoecer de tristeza e raiva por causa da queda de seu negócio, Jessica decide usar seus dons mágicos para ajudá-lo.

Ela o convence a construir um armário e a colocar dentro dele toda a sua raiva.

De alguma forma, isso parece aliviar o filho.

Mas, quando Frederick vai embora deixando o armário para trás, Jessica descobre que ele possui o poder de transformar os bonecos de plástico — que o filho tanto odiava — em pessoas reais do passado, em miniatura.




Ela passa a dar vida a essas pequenas pessoas para não se sentir sozinha, transferindo para elas o amor maternal que a sociedade lhe impediu de viver plenamente.

Omri descobre toda essa história através do diário e de entrevistas com antigos moradores da região.

Ele encontra alguns dos antigos bonecos de Jessica e, mesmo tendo prometido nunca mais usar o armário, decide dar vida a eles para descobrir como Jessica terminou sua vida.

Porém descobre que um deles, Bert Martin, era um habilidoso ladrão que roubou as joias de Maria por indignação com a forma como ela tratou Jessica ao afastá-la da sobrinha amada.

Esse roubo acabou fazendo com que a família de Omri perdesse sua antiga posição social de riqueza, tornando-se apenas classe média.

Omri então obriga o pequeno ladrão a devolver as joias no passado.

Porém, quando envia seus novos amigos de volta à linha temporal através do armário, Patrick — que havia ido visitá-lo na fazenda — o faz perceber que alterar o passado poderia causar até mesmo o desaparecimento do próprio Omri.




Isso o assusta profundamente, fazendo-o abrir mão novamente do poder do armário.

Mais tarde, conversando com sua mãe, Omri descobre que Bert não devolveu as joias, mas apenas a caixa que as guardava — um objeto de grande valor sentimental para Maria, pois havia sido um presente de seu pai.

Isso deu força para Maria reconstruir sua vida como viúva, sem alterar o destino da família de Omri.

O livro termina com o pai de Omri, Lionel, descobrindo a existência do armário mágico, e Omri finalmente tendo coragem de apresentar a ele seus amigos originais: Pequeno Urso e Estrela Brilhante.



 Resenha


Sim, Lynne Reid Banks extravasa desta vez no drama familiar, deixando um pouco de lado a fantasia. Mesmo assim, o livro continua sendo muito bom.

A história triste de Jessica trouxe experiências e aprendizados completamente diferentes daqueles apresentados nos outros livros.

Apesar de eu não sentir muita simpatia pela nova protagonista, gostei bastante do roteiro em si.

Não consigo simpatizar com a inveja que ela sente da irmã. Acho que as pessoas precisam aceitar as escolhas que fazem e entender que as consequências virão tanto para o bem quanto para o mal.

Por isso julgo a atitude de Jessica ao achar que tinha algum direito sobre as conquistas da irmã apenas porque o destino foi cruel com ela — quando, na verdade, muito do que aconteceu foi consequência de suas próprias escolhas.

Mesmo assim, esse roteiro realista, sentimental e cheio de camadas me tocou.

A história de Jessica foi muito bem construída. Sua maneira de transformar seu amor maternal em magia acaba nos levando novamente ao mundo de Omri.

Uma explicação linda e fantástica.

A criação do armário foi algo fantástico, mas ao mesmo tempo realista dentro da lógica da história: a raiva extraordinária de Frederick se transformando em algo material, quase como uma magia metafórica.

E isso acaba se tornando algo positivo, trazendo conforto para Jessica ao não ter mais a presença e o carinho do filho e depois perder também Lottie.

Esse conforto acaba sendo compartilhado também pelos próprios brinquedos/humanos.

Acredito que o que moveu Jessica foi a carência.

E não foi essa mesma carência que moveu Omri a dar vida aos seus brinquedos?

O livro não fala isso diretamente, mas vejo Omri, desde o primeiro volume, como um menino bastante distante dos pais, vivendo muito em seu próprio mundo.

Talvez isso também explique por que ele criou sua própria magia entre bonecos que se tornaram pessoas reais.

Para mim, essa é a grande metáfora do livro: a carência levando tanto Omri quanto Jessica a criarem vidas em miniatura para preencher o conforto emocional que lhes faltava.

Patrick também surpreende ao demonstrar responsabilidade ao pensar nas consequências de alterar a linha temporal.

Nosso menino realmente está crescendo.

E alguém tem alguma dúvida de que eu amei o final do livro, com o pai de Omri finalmente entrando no mundinho do filho?

Lionel consegue, com paciência e sabedoria, conquistar a confiança do filho e compreender o que estava acontecendo com ele.

Eu me vi muito em Lionel. Tento todos os dias, com conversas aparentemente banais, permanecer próximo dos meus filhos para poder ajudá-los sempre que necessário.

Imagine um filho nosso enfrentando guerras tribais, skinheads, tornados, risco de morte de amigos e alterações em linhas temporais… e nós sem poder fazer nada?

Por isso quero sempre estar atento.




O livro traz tudo isso de forma muito diferente do que eu estava acostumado na série, mas sem deixar de ser muito bom.

Uma fantasia de outro jeito.

Mais próxima.
Mais real.
Mais sentimental.

nota: 4,2 

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