Querido leitor,
Li o segundo volume da série The Indian in the
Cupboard, O Indígena no Armário, ou, como é conhecido aqui no
Brasil, A Chave Mágica.
A série conta a história de Omri, que, com uma chave
mágica que ganhou da mãe, herdada da avó, consegue puxar pessoas do passado
substituindo seus bonecos de ação, só que em miniaturas.
O garoto de nove anos percebe que, ao fazer isso, não
estava brincando com seus brinquedos, e sim lidando com pessoas reais. Então
volta suas miniaturas para o tempo delas quando coloca suas vidas em risco.
Só que, nesse segundo volume, Omri decide trazer de
volta seus companheiros em miniatura, Urso Pequeno e Boone, para lhes contar
que ganhou um grande prêmio por uma redação contando a história deles como se
fosse fictícia.
Só que isso traz novamente a terrível realidade do
tempo deles.
A aldeia do tempo de Urso Pequeno estava sendo atacada
em sua linha temporal, colocando em risco a vida dele e de Estrela Brilhante,
sua esposa, que estava prestes a dar à luz.
Omri e seu amigo Patrick decidem ajudar, trazendo toda
uma frente de guerra com seus soldadinhos de brinquedo e levando-os para a
linha temporal de Urso Pequeno para ajudar a defender a aldeia dos Mohawks, o
grupo indígena inimigo.
Mas Patrick tem uma brilhante ideia: ir saber como foi
essa batalha fantástica ao vivo. Ele decide testar a chave mágica em um baú que
caberia neles.
Só que, para ir para a linha temporal específica de
Urso Pequeno, ele tinha que levar algo pessoal do indígena. Ele, com egoísmo,
decide levar Estrela Brilhante, em trabalho de parto dentro da cabana. Com
isso, acaba levando Boone também, que estava ajudando a indígena Mohawk em hora
tão difícil.
Quando retorna de sua viagem transcendental, Patrick
acaba deixando Estrela Brilhante, o filho e Boone na aldeia, em meio à guerra.
Omri não vê outro jeito a não ser ele mesmo ir buscar
os amigos em miniatura.
Só que Patrick, que tinha que trazê-lo de volta,
demora mais do que o esperado. Ele acaba vendo mais coisas do que deveria,
enquanto, na linha temporal de Urso Pequeno, era um objeto inanimado: uma
decoração de um castor na tenda da aldeia indígena.
Ele ouve Estrela Brilhante dando à luz com ajuda de
Boone. Ele vê o grupo indígena inimigo invadir a aldeia e botar fogo nas
tendas, incluindo aquela em que Omri estava paralisado como objeto inanimado.
Ele vê também os Mohawks surpreendendo a tribo com
armas supertecnológicas.
Eles conseguem retornar ao tempo atual quando Patrick
pode trazê-los de volta, aproveitando que os pais de Omri saem de casa.
Mas a casa de Omri é atacada por um grupo de
skinheads. Eles querem roubar objetos valiosos.
Omri e Patrick usam os guerreiros em miniatura e as
armas das épocas deles para atacar os ladrões.
E mais uma guerra é vencida.
Resenha
Com material bem mais pesado que o primeiro livro, a
resposta para não ter havido uma adaptação do segundo volume fica explicada.
Omri passa por problematizações bem maiores que no
primeiro, trazendo o grande tema da série ainda mais a fundo: podemos brincar
de Deus com vidas à nossa volta?
Levar armas do século XX para uma guerra indígena, em
que ambos os lados tinham apenas arcos e flechas, faz o garoto de nove anos se
perguntar se influenciar nessa guerra foi algo certo a se fazer.
Guerras têm vilões ou mocinhos? Se ele tivesse trazido
à vida um membro da tribo inimiga, será que o vilão não seria Urso Pequeno?
Agora a série abre as portas para um novo universo, em
que a viagem no tempo é possível, e abre espaço para teorias sobre esse
universo que a autora Lynne Reid Banks criou.
O que viaja dentro do poder dessa chave mágica seria a
alma da pessoa, ficando em objetos representantes de sua personalidade, como
totens?
O que Omri era no passado seria a imagem daquele
castor?
E depois que morreu no tempo atual, o totem de Urso
Pequeno seria o brinquedo indígena de Omri?
A alma não morreria ou não iria para o além? Ficaria
na Terra como representação desse totem?
E o egoísmo de Patrick? Mesmo sabendo que são vidas
humanas, não pensa duas vezes quando decide usar a chave para seu bel-prazer,
realizando seus desejos. Foi muito triste vê-lo usar Estrela Brilhante em
momento tão difícil como se fosse um objeto.
E, no final, ver Omri questionando seu papel na guerra
de Urso Pequeno, mas não pensar duas vezes quando precisou lutar sua própria
guerra contra os skinheads invadindo sua casa.
Tudo é uma questão de perspectiva.
Acho que o segundo livro da série é, de verdade, um
questionamento filosófico e político — algo muito maior que um livro infantil.
E será que crianças estão preparadas para um questionamento tão pesado e
profundo?
A autora nos traz isso agora não por meio de
metáforas, mas por meio de uma agonia psicológica mesmo. E está muito longe de
ser apenas um livro infantil — mas soube conduzir muito bem, sem perder a
emoção.
Foi muito bom ver o Omri que conheci na infância viver
tantas coisas mais emocionantes do que enfrentar um rato mascote da família.
Espero que, nos outros livros, tenha mais.
Nota 4,5 ⭐

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