Querido leitor,
Acabamos de ver a série Emergência Radioativa. A série conta a história do desastre radiológico real que aconteceu na cidade de Goiânia, cidade em que nasci e cresci, no ano de 1987.
Ela mostra como catadores de lixo invadiram um hospital abandonado e pegaram a sucata de uma máquina radiológica, sem saber que continha o material radioativo Césio-137. Eles se contaminaram e também contaminaram familiares e vizinhos, incluindo uma garotinha de sete anos, que na série foi chamada de Celeste. Isso aconteceu até que uma das contaminadas percebeu que o que os estava prejudicando era o material e o levou para um posto de saúde.
Após a identificação dos sintomas dos pacientes contaminados como radiação, foi escalado para ajudar a conter o desastre Márcio, um especialista radiológico do Rio de Janeiro, que estava visitando o pai goiano.
Márcio abre mão da própria segurança para cuidar da descontaminação das casas e dos objetos pessoais dos contaminados.
Enquanto isso, a equipe médica luta para salvar a vida dos pacientes mais graves, enfrentando a revolta da população, que assistia ao desastre com preconceito disseminado pela mídia desinformada, agravado pelo jogo político que ainda tentava proteger sua própria imagem.
Os pacientes estavam cada vez mais graves, e a equipe médica estava reduzida por conta das greves da época e do medo de contaminação.
A menina, Celeste, não resistiu ao tratamento, junto com mais três vítimas.
A falta de respeito pelas vítimas sobreviventes também foi retratada, mostrando como a mãe de Celeste ficou sem casa, emprego e até sem a roupa do corpo. Nem o enterro da filha foi respeitado, graças ao preconceito da população, que não queria que a garotinha fosse enterrada no mesmo lugar que seus entes queridos.
Graças à incisiva vontade dos pesquisadores em salvar vidas humanas — e não em valorizar a imagem pública das instituições e dos políticos — a contaminação do Césio foi contida, e Goiânia pôde voltar à sua rotina.
Apesar disso, sabemos que as pessoas contaminadas nunca voltaram a ter uma vida normal. Não recebem assistência correta dos órgãos públicos, que preferem fazer apenas o básico para manter a imagem de que não foram omissos diante de uma situação tão crítica.
A série é muito bem interpretada por todos os atores, valorizando não só a máxima realidade possível, mas também entregando uma riqueza de atuação que raramente vemos em trabalhos nacionais. Ela busca um nível emocional comparável ao de produções internacionais de destaque, sem deformar a realidade.
Quero destacar a atuação de Marina Merlino, que interpretou a mãe da Celeste. Ela soube se conter na hora certa e extravasar o drama no momento do velório. Suas cenas foram muito chocantes e tocantes.
Acho que a série pode não ter retratado toda a realidade. Também considero criticável o fato de não utilizarem mais locações, atores e produtores goianos.
Mas a série serviu, sim, para reviver uma história que estava há muito esquecida e que precisamos lembrar, para mostrar como a política e os órgãos governamentais — que muitas vezes se colocam acima dos pobres e dos seres humanos — podem causar transtornos impossíveis de esconder debaixo do tapete.
Esse, sim, é um bom trabalho nacional.
Nota: ⭐⭐⭐⭐
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