Coraline e o mundo secreto


Querido leitor,

Vi, finalmente, o filme Coraline e o Mundo Secreto. Ainda não o tinha assistido por causa daquela velha história de querer ler o livro primeiro.



Como eu não lia o livro nem via o filme, quando meus filhos propuseram assisti-lo comigo, não pensei duas vezes.

O filme conta a história de Coraline, que vai morar em uma antiga mansão com os pais e descobre uma passagem secreta na casa que a leva para outro universo, onde seus pais são muito mais carinhosos e atenciosos.

Não são apenas os pais. O mundo inteiro parece mais perfeito aos olhos da garota.

Mas logo tanta perfeição cobra seu preço. Os pais perfeitos propõem que ela permaneça para sempre naquela realidade, tendo apenas que costurar botões no lugar dos olhos, assim como todos os habitantes daquele mundo.

Coraline, porém, recusa a proposta, e isso faz a Mãe Perfeita revelar sua verdadeira identidade. A Bela Dama é um ser sobrenatural que investiga os desejos das crianças no mundo real por meio de uma boneca, seduz suas vítimas para aquele universo e as devora depois que elas aceitam substituir os próprios olhos por botões.

Foi isso que aconteceu com várias crianças, cujos fantasmas Coraline encontra após tentar fugir da Bela Dama.

Quando finalmente consegue escapar, Coraline percebe que seus pais verdadeiros não estão em casa.

Eles também haviam sido levados para aquele mundo perfeito.



Ela então retorna ao Outro Mundo e propõe um desafio à Bela Dama: encontrar os verdadeiros olhos das crianças fantasmas e, em troca, recuperar seus pais.

Coraline consegue cumprir o desafio e vence a Bela Dama. Porém, ao voltar ao mundo real, a mão da criatura atravessa o portal junto com a chave, tentando recuperá-la para reabrir a passagem e atrair novas vítimas.

Coraline joga a chave e a mão da Bela Dama dentro do poço, selando definitivamente o portal entre os dois mundos.

Ao final, ela passa a viver feliz em seu mundo imperfeito, mas verdadeiro.

 Resenha


O filme apresenta uma qualidade visual impressionante, ainda mais considerando que foi produzido em stop motion, uma técnica extremamente trabalhosa e artesanal. Hoje, produções desse tipo são cada vez mais raras, em parte porque muitos processos manuais vêm sendo substituídos por animações digitais e, mais recentemente, pelo uso de inteligência artificial.

A complexidade das metáforas pode dificultar um pouco a compreensão da mensagem, principalmente para o público infantil.

O filme apresenta um universo sombrio que muitas pessoas associam ao estilo de Tim Burton. O visual psicodélico e gótico reforça metáforas sobre a imperfeição humana e sobre como devemos desconfiar daquilo que parece perfeito demais.

Algumas passagens são, de fato, perturbadoras. Ao mesmo tempo, vejo o filme como representante de uma época em que o entretenimento infantil se permitia ser mais ambíguo e menos preocupado em explicar tudo de forma direta. Hoje, muitas produções optam por mensagens mais explícitas e facilmente compreensíveis.

Naquela época, havia um equilíbrio diferente entre fantasia, estranheza e confiança na capacidade da criança de interpretar aquilo que via. Nem tudo precisava ser compreendido imediatamente. O que fosse absorvido seria proveitoso; o restante faria sentido apenas quando ela amadurecesse.

E o que meus filhos absorveram de Coraline?

Que a perfeição não existe.

Já eu fiquei pensando em outra questão:

Será que nós, como pais, precisamos oferecer uma imagem de perfeição o tempo todo? Temos realmente esse dever?

Ou podemos nos permitir ser imperfeitos? Essa reflexão tira um peso enorme das costas de qualquer pai ou mãe. Além disso, estamos permitindo que nossos filhos também sejam imperfeitos? Ou, sem perceber, estamos agindo como uma Bela Dama metafórica, consumindo a espontaneidade deles em nome de uma perfeição impossível?




Não sei se o filme foi concebido com toda essa complexidade. Talvez uma das vantagens de obras produzidas antes dessa tendência de explicar tudo seja justamente permitir interpretações que vão além da intenção original dos autores.

Nota: 2,5⭐

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