O homem marcado - JK Rowling como Robert Galbrath


 Querido leitor,

Acabei de ler o oitavo livro da série Cormoran Strike, escrita por J. K. Rowling sob o pseudônimo de Robert Galbraith.

A série acompanha o investigador particular Cormoran Strike e sua sócia, Robin Ellacott, que, além de formarem uma excelente dupla profissional, escondem há anos um amor que ambos insistem em negar.



Até agora, este foi, sem dúvida, o caso mais complexo da série.

Cormoran e Robin são contratados por Décima Mullins, que acredita que um corpo encontrado dentro de uma loja de produtos maçônicos pertence ao pai de seu filho, desaparecido há anos.

A polícia conclui rapidamente que o funcionário da loja, conhecido como William Wright, era, na verdade, o criminoso Jason Knowles. No entanto, Décima tem certeza de que o morto é Rupert Fleetwood, seu antigo companheiro.

Rupert era afilhado de Dino Longcaster, um empresário muito rico. Depois da morte dos próprios pais em um acidente de esqui, passou a trabalhar para Dino e acabou se apaixonando por Décima, que era mais velha que ele. Os dois tiveram um filho.

Em determinado momento, Rupert rouba uma valiosa peça maçônica pertencente ao padrinho e desaparece sem deixar rastros.



Décima nunca acredita que ele simplesmente a abandonou. Para ela, Rupert assumiu a identidade de William Wright e acabou sendo assassinado durante uma tentativa de roubo na loja maçônica.

Strike, porém, percebe logo no início que a identificação feita pela polícia apresenta inconsistências. Em vez de aceitar que o morto seja Jason Knowles, passa a investigar outras pessoas desaparecidas que poderiam ter assumido a identidade de William Wright.

O primeiro grande suspeito é Niall Semple, um ex-soldado que retorna da guerra com graves sequelas físicas e psicológicas. Após o aborto espontâneo da esposa e incapaz de lidar com o trauma, desaparece, fazendo muitos acreditarem que poderia ter assumido outra identidade. No fim, Strike descobre que sua história era uma tragédia paralela e que Niall não tinha ligação com o assassinato investigado.

Outro suspeito é Dick de Lion, um ex-ator pornô que desaparece após ameaçar denunciar um importante maçom, Oliver Branfoot.



Oliver utilizava diversos atores pornôs para filmar encontros sexuais sem o consentimento das parceiras. A suspeita era de que Dick tivesse assumido a identidade de William Wright e que Oliver tivesse ordenado seu assassinato para impedir a denúncia.

No entanto, Strike e Robin descobrem que Dick estava vivo, escondido na cidade onde sua família vivia, e o convencem a denunciar Oliver às autoridades.

O último grande suspeito é Tyler Powell.

Tyler era um jovem trabalhador que vivia com a avó e foi injustamente responsabilizado por um trágico acidente de carro que matou sua ex-namorada e o novo companheiro dela. Rejeitado pela cidade inteira, desapareceu.

Durante boa parte da investigação, Strike acredita que Tyler possa ter assumido a identidade de William Wright.



E essa hipótese estava correta.

Tyler realmente passou a viver como William Wright. Entretanto, o motivo de sua morte era muito mais grave do que todos imaginavam.

Ao reconstruir sua nova vida, Tyler acaba descobrindo os crimes cometidos por Ian Griffiths, um homem respeitado na comunidade que, na verdade, mantinha mulheres em cárcere privado e as submetia a abusos durante anos.

Entre as vítimas estava uma jovem criada por Ian como se fosse sua própria filha.



Quando Tyler percebe a verdade, torna-se uma ameaça para Griffiths, que acaba sendo o responsável por sua morte.

Paralelamente, Strike também descobre que Rupert Fleetwood jamais foi William Wright.

Na verdade, Rupert havia desaparecido por outro motivo.

Ele descobriu que era filho biológico de Dino Longcaster e, portanto, meio-irmão de Décima. Ao perceber que os dois haviam tido um filho sem conhecer esse parentesco, Rupert decidiu fugir para impedir que ela descobrisse a verdade.

No final, Strike e Robin conseguem convencê-lo a assumir a própria história e voltar para criar o filho.

Enquanto solucionam um dos casos mais complicados da carreira, acompanhamos também a evolução da relação entre Strike e Robin.



Desde o primeiro livro, ambos escondem os sentimentos que nutrem um pelo outro.

Robin primeiro permaneceu presa ao casamento com Matthew. Depois da separação, Strike preferiu preservar a amizade e a sociedade entre os dois, acreditando que um relacionamento poderia colocar tudo a perder.

Enquanto isso, Robin inicia um namoro com o policial Ryan Murphy.

Apesar de parecer o parceiro ideal, Murphy revela inseguranças e ciúmes em relação ao trabalho de Robin e à proximidade dela com Strike.

Percebendo que Robin pode aceitar um pedido de casamento de Murphy, Strike finalmente encontra coragem para confessar que sempre esteve apaixonado por ela.



Robin reage com emoção, mas também com indignação. Ela sente que Strike esperou tempo demais para dizer aquilo.

O livro termina exatamente nesse momento, deixando o leitor sem saber qual será a decisão de Robin.

Resenha

A cada novo livro da série Cormoran Strike, J. K. Rowling — ou melhor, Robert Galbraith — parece aumentar o desafio. Mas, desta vez, ela foi além.



O Homem Marcado não é apenas um romance policial. É praticamente um gigantesco quebra-cabeça, com dezenas de peças espalhadas pela mesa. E, como bom detetive, o leitor precisa decidir quais peças realmente pertencem ao caso principal e quais são apenas distrações.

Confesso que, em vários momentos, pensei que a autora tivesse exagerado.

Nunca um livro da série me exigiu tanta concentração. Nunca precisei organizar tantos personagens, tantas identidades falsas e tantas histórias paralelas para conseguir acompanhar a investigação. Durante a leitura, cheguei ao ponto de criar uma espécie de "arquivo da polícia", anotando personagens, páginas e ligações entre eles para não me perder.

E, curiosamente, acho que esse era exatamente o objetivo da autora.

Robert Galbraith decidiu confiar na inteligência do leitor. Ela não entrega respostas prontas. Pelo contrário: obriga-nos a investigar junto com Strike e Robin.

Isso, ao mesmo tempo que torna a experiência extremamente envolvente, também gera uma pequena frustração.



Em alguns momentos, Strike chega a conclusões que nós, leitores, simplesmente não temos como acompanhar. Não porque as pistas não existam, mas porque parte do raciocínio permanece apenas na cabeça dele.

Foi justamente essa sensação que mais me incomodou.

Enquanto Agatha Christie normalmente entrega todas as peças do quebra-cabeça para que o leitor tenha a chance de competir com Poirot, aqui Robert Galbraith parece dizer:

"Strike é um investigador extraordinário. Você pode acompanhá-lo, mas dificilmente conseguirá pensar exatamente como ele."

Confesso que, em vários momentos, senti que a autora escondia algumas peças importantes da investigação até o momento da revelação final.

Ainda assim...

Quando todas as histórias finalmente se encontram, percebemos que praticamente nada estava ali por acaso.

E que histórias!



Temos um ex-soldado destruído pelos traumas da guerra.

Um ex-ator pornô tentando reconstruir a própria vida depois de ser explorado por um homem poderoso.

Um jovem injustamente acusado que acaba descobrindo uma rede de crimes muito maior do que imaginava.

E outro rapaz que abre mão da própria felicidade ao descobrir uma verdade devastadora sobre sua família.

Cada uma dessas histórias poderia facilmente render um romance independente.

Talvez eu apenas tivesse organizado essas narrativas de forma um pouco diferente. Gostaria de acompanhar cada suspeito de maneira mais linear, antes de retornar à investigação principal.

Mas também me pergunto:

Será que isso faria o leitor se sentir realmente um investigador?

Provavelmente não.

Uma investigação de verdade não acontece de forma organizada. Ela é caótica. As pistas surgem fora de ordem. Pessoas mentem. Hipóteses são descartadas. Outras aparecem de repente.

Talvez o desconforto que senti durante a leitura fosse exatamente o desconforto que Strike também sentia tentando montar aquele enorme quebra-cabeça.

E isso é um mérito da autora.


Robin e Strike continuam sendo o coração da série

Por mais complexo que seja o caso, existe uma verdade que nenhum leitor da série consegue negar:

Nós queremos saber se Robin e Strike finalmente ficarão juntos.

O romance entre os dois continua sendo construído de forma lenta, quase dolorosa.

Robin tenta seguir em frente.

Strike tenta convencer a si mesmo de que preservar a amizade é mais importante do que confessar seus sentimentos.



Enquanto isso, Ryan Murphy parecia representar a escolha perfeita.

Mas Rowling faz questão de lembrar que pessoas aparentemente perfeitas também carregam inseguranças.

Murphy não é um vilão.

É apenas alguém que percebe, antes mesmo dos protagonistas, aquilo que o leitor já sabe há vários livros: Robin e Strike pertencem um ao outro.

Quando Strike finalmente reúne coragem para abrir o coração, a reação de Robin é uma das cenas mais humanas da série.

Ela não corre para os braços dele.

Ela fica magoada.

E faz sentido.

Depois de anos escondendo sentimentos, Strike escolhe justamente o momento mais complicado da vida dela para dizer aquilo.

Acho que qualquer pessoa reagiria da mesma forma.

E, como se não bastasse, Robert Galbraith encerra o livro exatamente nesse ponto.

Crueldade?

Talvez.

Eficiência narrativa?

Sem dúvida.


Uma observação curiosa

Enquanto lia, tive a impressão de que a campanha difamatória sofrida por Strike na imprensa lembrava muito a própria trajetória pública de J. K. Rowling.

Não sei se essa foi uma intenção consciente da autora.

Mas é difícil não enxergar algumas semelhanças na maneira como Strike precisa conviver com julgamentos públicos, manchetes sensacionalistas e pessoas formando opiniões sem conhecer toda a verdade.


Considerações finais

O Homem Marcado talvez seja o livro mais complexo da série.

Também é, provavelmente, o que mais exige do leitor.

Nem sempre concordei com a forma como algumas deduções foram apresentadas.

Em alguns momentos, senti que Strike tinha acesso a peças do quebra-cabeça que nós não tínhamos.

Mas, quando fechei o livro, percebi que havia vivido exatamente aquilo que espero de um grande romance policial:

Investiguei.

Errei.

Mudei de teoria inúmeras vezes.

Desconfiei das pessoas erradas.

E fui surpreendido pelo desfecho.

No fim das contas, Robert Galbraith conseguiu exatamente o que pretendia.

Durante centenas de páginas, eu não fui apenas um leitor.

Fui mais um investigador tentando acompanhar Cormoran Strike e Robin Ellacott.

E, sinceramente...

Espero que essa série nunca termine.

Porque, por mais complicado que seja o caso, sempre vale a pena voltar à agência de Denmark Street para acompanhar mais uma investigação dessa dupla extraordinária.

Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐


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