O incrível Circo Digital


Querido diário

Meus filhos me chamaram para ver uma animação chamada O Incrível Circo Digital.

Lembrei das propagandas, com seus desenhos psicodélicos e cores exageradas, e fui bem desanimado. Mas tomei coragem para agradá-los, passar um tempinho vendo o que eles queriam e entrar no mundinho deles.


Mas me surpreendi ao perceber que esse "Incrível Circo Digital" era, na verdade, um mundinho meu, e bem longe de ser apenas para crianças. Descobri que iria adorar.

A história acompanha Pomni, uma garota que se vê presa em uma realidade virtual, uma espécie de jogo, no corpo de uma animação de um bobo da corte. Ela não se lembra de sua vida real e divide esse mundo com outros personagens animados que também eram humanos. Todos precisam cumprir desafios, ou aventuras, criados por uma inteligência artificial chamada Caine.

Ao longo de várias aventuras malucas boladas por Caine, os personagens vão lidando com seus traumas humanos. Aos poucos, recuperam algumas lembranças do passado, enquanto acumulam novos traumas causados pelos desafios e pela falta de esperança de conseguir sair dali.

Quando um personagem perde completamente o equilíbrio emocional, ele sofre a chamada abstração, transformando-se em um enorme monstro e sendo isolado no subsolo.

No fim, Kinger, representado como o rei das peças de xadrez, revela ter uma ligação muito maior com o Circo do que todos imaginavam.

Quando Jax começa a perder o controle, Kinger decide enfrentar Caine e tenta usar seus conhecimentos para impedir que ele continue controlando aquele mundo.

Eles manipulam o ego de Caine enquanto Kinger tenta utilizar um computador para apagá-lo. Porém, não consegue.



Caine sobrevive. Entretanto, percebe que a tentativa frustrada dos participantes aconteceu porque ele havia levado seu egocentrismo longe demais. A partir daí, passa a tentar melhorar a vida deles dentro do jogo.

No final, Caine mostra quem cada um era antes de entrar no Circo e passa a usar seus poderes para tornar aquele mundo menos cruel, já que, aparentemente, eles permanecerão ali para sempre.


Resenha

Acho que a melhor forma de descrever O Incrível Circo Digital é como uma grande análise psicológica. A autora construiu cada diálogo e cada cena para parecer apenas uma enorme loucura, mas tudo possui camadas e mais camadas de autoanálise.

O Circo Digital representa a vida.

Caine representa o sistema, ou até mesmo a sociedade, criando regras sobre regras para nos prender dentro desse universo.

No fim das contas, as aventuras servem apenas para nos manter ocupados durante o tempo que antecede nossa abstração.

Talvez esse também seja o sentido da vida.

E, consequentemente, o sentido da própria série.

Acho que não poderia existir momento melhor para assistir a algo tão profundo e cheio de camadas quanto O Incrível Circo Digital.



Justamente em um momento em que estou enxergando a vida como algo tão sem sentido quanto as aventuras criadas por Caine.

Mas o mais curioso é que cada aventura dele possuía um significado.

A mansão mal-assombrada representava o confronto com nossos próprios monstros.

A rede de fast-food representava nossas máscaras sociais.

As máscaras que usamos para sermos aceitos.

Será que vale a pena?

Pomni foi a personagem com quem mais me identifiquei.

Sempre procurando uma explicação.

Um porquê para tudo.

Tentando entender quem realmente eram as pessoas ao seu redor.

Mesmo quando seu objetivo principal deveria ser apenas sair daquele lugar.

Será que, se ela tivesse parado de procurar tantas respostas e simplesmente focado em escapar, teria conseguido sair mais rápido?

E será que comigo acontece a mesma coisa?

Será que, se eu procurasse menos camadas nas coisas, sofresse menos e me preocupasse menos, minha vida seria mais leve?

Também me vi muito em Ragatha.

A "mãezona" do grupo.



Sempre preocupada em cumprir sua missão da forma correta.

Sempre preocupada com o bem-estar dos outros.

Acho que ela se preocupa tanto com os outros que acaba esquecendo de olhar para si mesma.

Sua própria autoanálise fica em segundo plano.

Será que essa não é uma maneira de se esconder?

De não enfrentar seus próprios medos e defeitos, concentrando toda sua energia nos problemas das outras pessoas?

E o que dizer de Jax?

Ele usa o humor como escudo.

Quando isso não basta, ele ataca.

Afasta as pessoas.

O que foi aquela história com Ribbit?

Será que ele finalmente encontrou alguém em quem pudesse confiar?



Alguém diante de quem pudesse abaixar sua guarda?

E, quando percebeu que havia mostrado uma parte verdadeira de si, entrou em pânico?

Talvez o maior medo de alguém que vive atrás de máscaras seja justamente entregar sua verdadeira identidade para outra pessoa.

Porque, a partir desse momento, essa pessoa passa a carregar uma parte de quem você realmente é.

Não um poder ruim.

Mas a responsabilidade de conhecer aquilo que ninguém mais conhece.

O verdadeiro Jax.

Com tantas mensagens escondidas em praticamente todas as cenas, vocês têm noção do poder que essa série possui?

Ela é tão profunda e tão complexa que muda completamente quando começamos a entendê-la.

No fim, vejo Caine como uma representação da fé.

Ou, talvez, de uma determinada visão de Deus.

O que acontece quando a fé em um controlador absoluto sobe à cabeça?

Quando esse "Deus" passa a amar mais sua própria obra do que as pessoas que vivem nela?

Quando as aventuras se tornam mais importantes do que aqueles para quem elas deveriam existir?

Talvez seja justamente esse o sentido do final.

Os personagens não saem do jogo.

Nós também ainda não saímos do nosso.

Mas talvez exista a possibilidade de transformar esse mundo em um lugar melhor enquanto ainda estamos dentro dele.

E existe uma coisa que achei fantástica.

Enquanto nós, adultos, encontramos discussões sobre identidade, trauma, propósito, fé e sentido da vida...

As crianças que estão ao nosso lado apenas riem das cores, das loucuras e dos personagens.

É como se duas séries completamente diferentes estivessem acontecendo ao mesmo tempo.

É claro que é preciso cuidado com algumas cenas de violência, alguns xingamentos e algumas falas de duplo sentido.

Mas nada que um pouco de conversa, contexto e orientação dos pais não resolvam.

O melhor de tudo foi perceber que entrei naquele universo por causa dos meus filhos.

Mas, no fim, fui eu quem acabou se encontrando ali.

E isso tornou a experiência ainda mais especial para todos nós.

Nota ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ 


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