Pelo Caminho - 1° temporada





Querido leitor,

Assisti à série Pelo Caminho (Ripple), cujo título faz referência ao chamado efeito dominó"ou, mais precisamente, ao efeito em cadeia.

E a série é exatamente isso: pessoas completamente desconhecidas, cada uma carregando suas próprias dores, que acabam se cruzando pelo caminho e construindo amizades capazes de mudar suas vidas.

Curiosamente, foi exatamente isso que aconteceu comigo.




Eu estava procurando algo diferente na Netflix. Já estava começando a me cansar das séries que costumo assistir quando, por acaso, Pelo Caminho cruzou o meu caminho.

E foi amor à primeira vista.

Acho que foi como encontrar um grande amor avassalador. Meu novo This Is Us.

Chorei muito. A série mexeu com a química do meu cérebro e destruiu meu psicológico. Já adianto minha nota: ⭐⭐⭐⭐⭐♥️.

A história acompanha Nate, dono de um bar de vinhos — e só esse detalhe já me conquistou. Pai de uma menina surda, ele está passando por um processo de separação quando conhece Kris, uma produtora musical. Os dois começam a viver um novo amor justamente no momento em que Nate descobre que está com câncer de pulmão.



Convenhamos: não era o melhor momento da minha vida para assistir a uma história com essa temática.

Mas a série já havia me conquistado.

Então não havia mais volta.

Foi exatamente como aconteceu com Kris quando conheceu Nate. Ela também não podia simplesmente desistir quando descobriu que ele estava doente. Não era o momento ideal para ela, mas o amor simplesmente aconteceu.

Kris, que havia sido demitida da gravadora onde trabalhava, decide abrir sua própria produtora musical apostando no talento de Aria. Ao mesmo tempo, precisa enfrentar a morte do pai, com quem mantinha uma relação difícil.



Também não era um bom momento para recomeçar.

Mas Nate já havia conquistado Kris com seu humor irônico diante dos problemas.

E que problemas...

A série retrata de forma extremamente realista as dores provocadas pelo câncer. Ao mesmo tempo, consegue mostrar, com delicadeza, como o amor, a amizade e o carinho das pessoas ao redor tornam esse caminho um pouco menos pesado.


Um desses personagens é Aria.

Kris a conhece por acaso, enquanto Aria toca violino na rua.




Aria é uma musicista talentosa que tenta reconstruir a própria vida depois de desenvolver agorafobia. Ao mesmo tempo, enfrenta o sofrimento causado pelas dificuldades para engravidar e pelo desgaste de seu casamento com John, que acaba se envolvendo com outra mulher.

Quando Kris lhe oferece a oportunidade de gravar por sua nova produtora independente, Aria parece finalmente enxergar uma chance de recomeçar.

Mas, durante uma apresentação no bar de Nate, uma antiga colega de trabalho de Kris a vê cantar e lhe oferece um contrato muito maior.

Aria aceita.

A decisão decepciona profundamente Kris, que havia apostado tudo nela.




Outro frequentador assíduo do bar é Walter.

Logo no início da série, ele comemora trinta anos de casamento com Brenda.

No dia seguinte, porém, Brenda morre de forma inesperada.

A partir daí, Walter precisa enfrentar algo que talvez seja o maior desafio de sua vida: descobrir quem ele é sem a mulher com quem dividiu três décadas de sua existência.

Além da solidão, Walter ainda precisa lidar com outro fantasma do passado.

A igreja.

Brenda era uma frequentadora assídua, mas Walter carregava um trauma profundo. Quando era criança, foi obrigado pelo pai a frequentar uma igreja extremamente rígida. Depois da morte de sua irmã, sentiu que nunca encontrou ali o acolhimento que tanto precisava.

É justamente nesse ambiente que ele conhece Tara.

Viúva como ele, Tara lhe oferece algo que Walter havia perdido junto com Brenda: amizade.

Ela o ajuda a perceber que a velhice não precisa ser apenas uma espera pela morte. Ainda existem novas experiências, novos sonhos e até novos negócios. Um deles é tornar-se sócio de Dane no bar.




Mas Tara também possui sua própria história.

Enquanto tenta ajudar Walter a reencontrar o sentido da vida, ela mesma reencontra o amor em Sylvie, uma vendedora de eletrônicos.

O relacionamento das duas evolui rapidamente. Quando o apartamento de Sylvie entra em reforma, elas acabam indo morar juntas antes mesmo de conhecerem plenamente os hábitos uma da outra.


Como acontece com muitos casais, a convivência traz pequenas discussões e diferenças que acabam afastando as duas.

Mas, quando Sylvie finalmente volta para casa, Tara percebe que sente falta justamente das pequenas implicâncias que tanto a incomodavam.

É curioso como a série consegue transformar até as pequenas brigas do cotidiano em demonstrações de amor.

No início da série, parece que acompanharemos apenas pequenas histórias independentes de pessoas aleatórias vivendo em Nova York.

Mas não demora para percebermos que isso não é verdade.

Logo aqueles personagens deixam de ser estranhos.

Eles se tornam nossos amigos.

É como se também estivéssemos sentados no balcão do bar de Nate, ouvindo suas conversas e compartilhando seus problemas.

O choque provocado pela doença de Nate é devastador.

Existe um contraste muito forte entre o homem seguro, sempre disposto a cuidar de todos, e a fragilidade que o câncer lhe impõe.

De repente, ele precisa ser cuidado.

Pela ex-esposa.

Por Kris.

Pelos amigos.

E isso me levou às lágrimas.

Talvez porque eu tenha me enxergado muito nele.

Também sou o tipo de pessoa que gosta de cuidar dos outros e assumir responsabilidades. Por isso, quando a doença me coloca na posição de quem precisa de ajuda, sinto uma dificuldade enorme em aceitar esse papel.

Talvez tenha sido por isso que Nate me emocionou tanto.

Mas existe outra camada do personagem que achei muito interessante.

Apesar de parecer o parceiro perfeito, Nate demonstra uma tendência constante a se afastar das pessoas quando acredita que sua presença pode machucá-las.

Foi assim com a ex-esposa.

Foi assim com os pais.

E também com Kris.

Ele decide romper o relacionamento para poupá-la da possibilidade de perdê-lo para o câncer.

O problema é que, durante todo esse processo, Nate nunca pergunta o que Kris realmente deseja.

Ele decide por ela.

Talvez sua atitude tenha sido altruísta.

Talvez tenha sido egoísta.

Ou talvez tenha sido as duas coisas ao mesmo tempo.

Kris, justamente quando começava a reconstruir sua vida após perder o pai e sentir-se traída por Aria, precisava de alguém em quem pudesse se apoiar.

Por isso, sofri tanto com os dois.

Confesso também que Aria foi a personagem com quem tive mais dificuldade de criar empatia.

Depois da forma como tratou Kris, passei a enxergá-la de maneira bastante crítica.

Cheguei até a compreender parte da frustração de John.

Não estou dizendo que a traição dele foi correta.

Trair nunca é a solução.

Mas a série também mostra o quanto ele sofreu vendo a mulher que amava mergulhar cada vez mais em sua dor.

No início, consegui me solidarizar bastante com ele.

Mais tarde, porém, passei a enxergar Aria como alguém que, muitas vezes, machucava justamente as pessoas que tentavam ajudá-la.

Talvez eu esteja sendo injusto.

Talvez minhas experiências pessoais tenham influenciado esse julgamento.

Mas acredito que essa seja uma das maiores qualidades da série.

Ela aproxima tanto aqueles personagens da nossa realidade que deixamos de analisá-los apenas como ficção.

Começamos a julgá-los como julgamos pessoas reais.

E talvez seja exatamente aí que esteja sua maior força.


A história de Walter também me marcou profundamente.


Só de imaginar minha vida sem minha esposa já sinto um vazio enorme.


Estamos casados há quinze anos. Imaginar que eu passaria mais quinze ao lado dela, completando trinta anos de casamento, e que, de repente, ela não estivesse mais ali para dividir nossa rotina, nossos costumes e até os pequenos detalhes do dia a dia é algo que me deixa completamente perdido.


Walter consegue nos colocar exatamente nessa posição.


Ele nos obriga a pensar em uma pergunta da qual normalmente fugimos.


E se esse dia realmente chegar?


Ou pior.


Quando eu partir, será que minha esposa estará preparada para continuar vivendo sem mim?


Foram essas perguntas que permaneceram comigo depois que a série terminou.


Mas os momentos em que mais chorei foram três.


O primeiro aconteceu quando Nate contou à filha que precisaria fazer a cirurgia.


Naquele momento, ele precisou da ajuda da ex-esposa para encontrar forças e explicar tudo à menina.


Aquilo simbolizou exatamente o que eu havia comentado antes.


Pela primeira vez, Nate deixou de ser o homem que protege todo mundo e aceitou ser vulnerável.


Aceitou precisar de ajuda.


Eu já vivi momentos parecidos.


Muitas vezes tentei ser o super-herói dos meus filhos.


Em outras, simplesmente não consegui.


E, para minha surpresa, foram eles que me acolheram.


Às vezes, nós, pais, esquecemos que também podemos ser cuidados pelos nossos filhos.


O segundo momento foi quando Nate contou a Kris que a cirurgia não havia funcionado e que o câncer tinha se espalhado.


Essa cena me atingiu de forma muito pessoal.


Nos últimos anos, acompanhei de perto pessoas que enfrentaram o câncer.


Além disso, convivo com uma doença crônica rara, que de tempos em tempos também desperta meus próprios medos.


Ver aquela esperança sendo substituída pela notícia da metástase foi doloroso.


A série retrata muito bem a decepção de perceber que a vida nem sempre segue o caminho pelo qual oramos.


E, talvez, ainda mais difícil do que receber essa notícia seja compartilhá-la com quem amamos.


O terceiro momento foi, naturalmente, a morte de Finn.


A amizade construída entre ela e Nate durante o tratamento é uma das relações mais bonitas da série.


Pensar que uma criança consegue enfrentar tanto sofrimento com tanta leveza parte meu coração.


Durante a adolescência, também passei por momentos difíceis por causa do reumatismo.


Talvez por isso eu tenha me identificado tanto com ela.


Quando Nate percebe que conseguiu uma vaga no estudo clínico justamente porque Finn havia morrido, a série nos lembra que, às vezes, uma esperança nasce da perda de alguém.


É uma cena cruel.


E profundamente humana.


No fim das contas, fiquei me perguntando se realmente havia assistido à série no momento errado.


Talvez não.


Talvez histórias sobre amor e luto nunca cheguem no momento errado.


Porque amar sempre será correr o risco de sofrer.


E, ainda assim, vale a pena.


A maior mensagem que levo de **Pelo Caminho** é justamente essa.


O fato de as pessoas que amamos um dia partirem não torna esse amor inútil.


Muito pelo contrário.


É justamente a finitude que torna o amor tão precioso.


O amor não deve ser evitado por medo da despedida.


Ele deve ser vivido intensamente durante todo o tempo que nos for concedido.


E talvez essa se

ja a maior beleza da vida.


Ela acaba.


Mas, enquanto existe, nos dá a oportunidade de amar.

♥️♥️♥️♥️♥️

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