Querido leitor,
Acabei de ler o romance espírita Entre o Amor e a Guerra, psicografado por Zíbia Gasparetto, pelo espírito Lucius.
O livro conta a história de Denizarth Lefreve, que, durante a Segunda Guerra Mundial, precisou se disfarçar de alemão, apesar de servir ao exército francês.
Ele recebe a ajuda do soldado Ludwig, que o leva para sua casa acreditando que ele era um soldado alemão que havia perdido a fala devido aos danos cerebrais sofridos em combate.
Na família de Ludwig, Denizarth conhece Ana, irmã dele. Logo os dois se apaixonam e se casam. Entretanto, como Denizarth vivia com documentos falsos de um cidadão alemão, o casamento não possuía validade legal. Mesmo assim, desse amor nasce um fruto: Ana engravida.
Algum tempo depois, a polícia alemã descobre que Denizarth é francês. Ele é capturado e só permanece vivo porque acreditam que seja um espião.
Os nazistas chegam a obrigar Ana a visitá-lo e dizer que não o amava, tentando manipulá-lo para que revelasse informações.
Denizarth sobrevive às torturas graças à ajuda de um grupo de verdadeiros espiões franceses, que consegue libertá-lo.
Depois disso, ele passa a trabalhar realmente como espião e retorna à França.
Ao voltar, descobre que sua irmã, Gisele, havia sido enganada por um soldado alemão e, desesperada, tentou tirar a própria vida. A situação torna-se ainda mais dramática porque ela estava grávida.
Movido pelo desejo de vingança, Denizarth utiliza sua posição na guerra para planejar um atentado contra o soldado que iludiu sua irmã.
Entretanto, descobre que Ludwig era amigo desse homem. Esse fato desperta um profundo conflito de consciência.
Consumido pela raiva, Ludwig faz Denizarth acreditar que Ana e o filho haviam morrido.
Mesmo assim, Denizarth desiste da vingança e decide seguir sua vida.
Terminada a Segunda Guerra Mundial, confortado pelos ensinamentos espíritas, ele passa a dedicar-se ao trabalho voluntário, ajudando crianças órfãs a encontrarem novas famílias.
É nesse período que conhece Hans, um menino carismático que desperta todo o seu amor paternal. Denizarth decide adotá-lo.
Durante um encontro de um grupo de ensino da língua francesa para crianças, Hans conhece um menino chamado Karl. Graças à tia que o acompanhava, Denizarth descobre que aquele garoto era, na verdade, seu próprio filho.
Ele também descobre que Ludwig havia mentido por vingança: Ana e Karl nunca tinham morrido.
Denizarth reencontra Ana, que reafirma seu amor por ele, mesmo sabendo que ele havia sido considerado um inimigo de guerra. Eles decidem reconstruir a família ao lado de Karl e Hans.
Entretanto, quando vão conversar com Ludwig, ele perde completamente o controle e atira contra Denizarth. Hans, em um ato de amor pelo pai, coloca-se na frente e morre para salvá-lo.
Ludwig é morto pela polícia.
Consumido pelo ódio, Denizarth passa por um profundo sofrimento emocional. Mesmo assim, Ana e Karl lutam para preservar a união da família.
Com a ajuda de espíritos mais evoluídos, Denizarth recupera a paz interior, enquanto o espírito de Ludwig, que ainda o perturbava após a morte, é finalmente encaminhado para tratamento espiritual.
Assim, Denizarth e sua família conseguem, enfim, iniciar uma vida de verdadeira felicidade.
Resenha
Querido leitor,
Tinha um bom tempo que eu não lia um romance espírita. Sentia que precisava voltar a ler um livro com temas espirituais como este. Quando percebi que o próximo livro da Zíbia que faltava na minha lista tinha como cenário a Segunda Guerra Mundial, senti como se fosse o destino indicando que aquele deveria ser o próximo da fila.
Sempre me fascinou a estrutura dos romances espíritas, com vários enredos que se desenvolvem paralelamente e acabam se unindo no final, repletos de reviravoltas. Além disso, quase sempre terminam trazendo um ensinamento elevado, que aproxima o leitor de uma mensagem de paz, esperança e evolução espiritual.
Especificamente nos romances de Zíbia Gasparetto psicografados por Lucius, há um aspecto que nunca me agradou completamente. Muitas vezes, acontecimentos que considero importantes são tratados de forma muito rápida. Se fosse um romance tradicional, provavelmente esses momentos receberiam um desenvolvimento maior, permitindo ao leitor mergulhar mais profundamente na história e nos personagens. Como o objetivo principal da obra parece ser transmitir a mensagem espiritual, alguns acontecimentos acabam ficando em segundo plano. Em certos momentos, senti falta dessa maior imersão.
Por outro lado, os diálogos são extremamente fortes. Eles não servem apenas para ensinar conceitos espíritas, mas também carregam uma carga emocional muito grande. São conversas que valorizam o sentimento dos personagens e tornam várias cenas bastante comoventes.
As cenas de ação envolvendo a guerra também me surpreenderam. São descritas de forma quase cinematográfica. O contraste entre o caos da guerra e os sentimentos vividos pelos personagens cria um equilíbrio interessante, fazendo com que a narrativa funcione tanto como romance quanto como drama histórico.
Mas o maior ensinamento do livro, para mim, é o perdão.
Dentro da doutrina espírita, perdoar é um dos ensinamentos mais constantes. Entretanto, quando chegamos à vida adulta e percebemos o tamanho das injustiças que existem no mundo, torna-se muito difícil aceitar esse princípio. É complicado compreender o perdão em seu sentido mais profundo: abandonar o desejo de vingança, guardar apenas o aprendizado daquela experiência e seguir vivendo sem permitir que o mal continue governando nossa vida.
Se enxergarmos a existência humana como única, realmente é muito difícil aceitar essa ideia. Sob uma visão puramente materialista, parece extremamente injusto que pessoas que causaram tanto sofrimento simplesmente sigam suas vidas sem sofrer qualquer consequência, enquanto as vítimas carregam suas dores.
Por outro lado, sob a ótica espírita, tudo muda. Se realmente existem várias existências, talvez muitos sofrimentos atuais sejam consequências de atitudes tomadas por nós mesmos em vidas anteriores. Nesse contexto, o perdão deixa de parecer uma injustiça e passa a representar uma oportunidade de encerrarmos um ciclo de sofrimento que poderia continuar indefinidamente.
Talvez, para julgarmos se algo foi verdadeiramente justo ou injusto, fosse necessário enxergar toda a trajetória do espírito, e não apenas uma única existência. É justamente essa perspectiva que torna o perdão compreensível dentro da filosofia espírita.
Outro ensinamento que enxerguei no livro é a própria guerra.
Quem está realmente certo?
Essa talvez seja a pergunta mais difícil de responder. Durante uma guerra, cada lado acredita estar defendendo a própria verdade. Muitas vezes, homens comuns acabam se tornando inimigos simplesmente porque foram colocados em lados opostos por decisões tomadas muito acima deles.
O mais triste é perceber que esse comportamento continua existindo atualmente. Embora não estejamos vivendo uma guerra mundial, vemos famílias, amizades e relacionamentos sendo destruídos por disputas ideológicas e políticas. Quando deixamos de enxergar o outro como um ser humano e passamos a vê-lo apenas como um inimigo, damos o primeiro passo para conflitos muito maiores.
No fim, tudo parece tão sem sentido. Tantas vidas destruídas por disputas de poder, orgulho e interesses que, muitas vezes, pouco têm a ver com as pessoas que realmente sofrem suas consequências.
Essa reflexão me leva novamente ao ensinamento espírita sobre a evolução moral.
Seria maravilhoso se a humanidade buscasse essa evolução não apenas pensando em seu próprio crescimento espiritual, mas também no bem coletivo. Talvez, se cada pessoa buscasse ser um pouco melhor em benefício de todos, viveríamos em uma sociedade mais justa, mais pacífica e verdadeiramente fraterna. É um ideal difícil de alcançar, mas que vale a pena perseguir.
No fim, considero Entre o Amor e a Guerra um romance de excelente roteiro, personagens marcantes, boas reviravoltas e um desfecho bastante satisfatório. Independentemente de o leitor acreditar ou não na reencarnação ou nos ensinamentos espíritas, a obra transmite valores universais, como a bondade, a compaixão e, principalmente, o perdão.
Talvez esse seja justamente o maior mérito do livro: mostrar que, acima de qualquer religião, está a capacidade humana de amar, compreender e recomeçar.
Nota: 3,5 ⭐

Comentários
Postar um comentário