Querido leitor,
Acabei de assistir à minissérie da Globo Felizes para Semre?
A história é centrada na família Drummond, que aparenta ser feliz e perfeita.
Os patriarcas da família, Dionísio e Norma, comemoram 46 anos de casamento. A relação entre os dois é abalada quando uma antiga namorada de Dionísio reaparece, levando-o a revisitar a vida de aventuras à qual havia renunciado na juventude.
Enquanto isso, Norma, professora universitária, passa a sofrer assédio de um aluno. Com firmeza e insistência, ela consegue afastá-lo.
O casal tem três filhos: Cláudio, Joel e Hugo.
Cláudio é um empresário da construção civil envolvido em um esquema de corrupção em contratos públicos. Para ocultar parte dos crimes, utiliza a esposa, Marília, como laranja, sem que ela tenha plena consciência do que acontece.
O casamento dos dois já havia sido profundamente abalado pela morte do filho pequeno. Cláudio passa a manter diversos casos extraconjugais. Em determinado momento, ao perceber o interesse de Marília em experimentar uma relação a três, ele contrata a garota de programa conhecida como Danny Bond.
Na hora decisiva, porém, Marília desiste. Ainda assim, a aproximação faz Cláudio manter contato com Danny. O que ele não imagina é que Marília também continuará se encontrando com ela e, aos poucos, as duas desenvolverão um sentimento verdadeiro uma pela outra.
Por trás da identidade de Danny Bond está Denise. Ela se aproxima de Cláudio a pedido de Joel, que pretende reunir provas para denunciar o irmão por corrupção.
Joel também trabalha na construtora da família, mas é contrário aos esquemas ilegais de Cláudio. Para conseguir desmascará-lo, conta com a ajuda de Denise.
Ao mesmo tempo, Joel vive um relacionamento conturbado com Susana. No início, o fim da relação é tratado quase de forma leve, mas Joel demonstra um comportamento cada vez mais possessivo e obsessivo. A situação se agrava quando, além do uso constante de drogas pesadas, ele descobre que Susana já iniciou um relacionamento com outro homem.
O ciúme se transforma em obsessão, levando Joel a diversas atitudes abusivas. Mesmo assim, Susana e seu novo companheiro, Buza, não se deixam intimidar pelo poder e pela influência da família Drummond.
No final da história, Susana descobre que está grávida. Surge então a dúvida: o bebê é filho de Joel ou de Buza? Buza recebe o resultado do exame de DNA, mas decide rasgá-lo sem sequer ler o resultado, demonstrando que amará a criança independentemente da paternidade biológica.
O outro filho da família é Hugo, casado com Tânia. Durante anos, ele acredita ser pai de Júnior. Entretanto, ao realizar exames médicos, descobre que sempre foi estéril.
A revelação destrói o casamento. Ao mesmo tempo, Júnior, influenciado por uma mulher mais velha com quem mantém um relacionamento, passa a integrar um grupo de ativistas ligado aos Black Blocs e participa de manifestações contra a empresa da própria família, administrada por seu tio Cláudio.
Confrontada por Hugo e Júnior sobre a verdadeira paternidade do rapaz, Tânia revela que ele é fruto de uma relação passageira com o próprio cunhado, Cláudio — justamente o homem que Hugo e Júnior mais desprezam.
Como se não bastasse o fim do casamento, Tânia ainda precisa enfrentar as consequências de um atropelamento que provocou ao sair de um motel com outro amante. Os dois fogem sem prestar socorro por medo de serem reconhecidos.
Paralelamente, Denise se apaixona de verdade por Marília. No entanto, continua presa ao acordo que fez com Joel para investigar Cláudio.
Pressionada por Joel, Denise é obrigada a decidir entre entregar as provas contra Cláudio, sabendo que isso também prejudicaria Marília, ou proteger a mulher por quem se apaixonou.
Ela se recusa a entregar Marília. Revoltado, Joel divulga vídeos comprometedores de Denise com Cláudio. Ao descobrir que Denise também mantinha um relacionamento com o marido, Marília sente-se profundamente traída, justamente quando Denise havia se tornado seu único porto seguro após o fracasso do casamento.
Após o velório de Dionísio, Marília vê Denise saindo ao lado de Joel e acredita que ela continuará colaborando com a investigação. Armada, decide segui-los. Cláudio também vai atrás dos dois com uma arma, deixando claro que aquele encontro dificilmente terminaria bem.
No confronto final, Denise também está armada e desesperada. Antes que qualquer explicação aconteça, Marília atira nela, acreditando que ela irá traí-la mais uma vez. Denise morre nos braços de Joel. Cláudio também pretendia matar Marília, mas a polícia chega ao local e prende os dois, encerrando de forma trágica a história da família Drummond.
Resenha
A famosa cena de Paolla Oliveira na divulgação da minissérie foi, sem dúvida, uma estratégia para chamar a atenção do público quando Felizes para Sempre? foi exibida na televisão aberta. No entanto, a série é muito mais do que o erotismo sugerido pela propaganda.
Paolla Oliveira consegue esconder, por trás da sensualidade e das cenas quentes, os olhares de tristeza de Denise, conhecida como Danny Bond. Aos poucos, percebemos que existe uma mulher marcada pela solidão e pelos conflitos, muito além da fantasia criada para satisfazer os desejos de casais ricos e aparentemente realizados.
Uma das melhores cenas da minissérie é quando Danny Bond consegue fazer Marília se sentir um pouco mais à vontade em uma situação completamente nova para ela. A sequência é delicada e marca o início de uma relação construída muito mais sobre acolhimento e cumplicidade do que apenas sobre desejo.
Também impressiona a atuação de Maria Fernanda Cândido. Acostumada a interpretar personagens fortes e imponentes, aqui ela constrói uma Marília extremamente frágil, insegura e com a autoestima destruída. Sua transformação ao longo da história é um dos pontos mais marcantes da obra.
Foi justamente esse contraste entre Denise e Marília que mais despertou meu interesse pela minissérie e me fez querer acompanhá-la até o fim.
Outro grande acerto do elenco foi a escolha de Enrique Diaz para interpretar Cláudio. Poucos atores conseguem despertar tanta repulsa no público de forma tão natural. Cláudio não destrói apenas o próprio casamento; ele corrói emocionalmente as duas mulheres que gravitam ao seu redor. Curiosamente, é justamente quando Denise e Marília se aproximam que ambas começam a recuperar a autoestima e a enxergar um caminho para reconstruir suas vidas.
O mais triste é perceber que, em uma história tão próxima da realidade, essa reconstrução é interrompida de maneira brutal. À medida que os acontecimentos se desenrolam, a autoestima das duas volta a ser destruída, conduzindo a um desfecho profundamente trágico.
Embora muitas pessoas interpretem Felizes para Sempre? como uma reflexão sobre a falsa ideia de felicidade nos relacionamentos, enxerguei outro tema predominante: o amor pelos filhos.
Cláudio e Marília jamais conseguem superar a morte do filho pequeno. A perda destrói o casamento e transforma completamente a forma como os dois enxergam a vida.
Hugo demonstra um amor incondicional por Júnior. Mesmo descobrindo que não é seu pai biológico, continua sendo seu pai em todos os sentidos. Há uma cena em que, diante do desespero, ele pensa em tirar a própria vida, mas é justamente o amor pelo filho que o impede de seguir esse caminho.
Outra sequência emocionante é a de Buza rasgando o resultado do exame de DNA sem sequer olhar o conteúdo. Para ele, o amor vale mais do que qualquer vínculo biológico. Essa talvez seja uma das cenas mais bonitas de toda a minissérie.
Não considero coincidência que um dos episódios se chame Filhos, porque te-los?. Fiquei me perguntando se esse não seria o verdadeiro ponto central da história. Afinal, talvez os filhos representem aquilo que mais se aproxima da ideia de um "felizes para sempre".
É possível que essa interpretação também tenha relação com minha própria forma de enxergar a felicidade. Talvez eu esteja projetando meus valores sobre a obra. Ainda assim, não consegui deixar de perceber que, ao longo da narrativa, dinheiro, poder e ambição acabam sendo deixados de lado sempre que entram em conflito com o amor, a autoestima ou os laços familiares.
Talvez essa seja uma das respostas possíveis para a pergunta presente no título da minissérie.
Outro aspecto que me chamou a atenção foi o realismo da história. Em alguns momentos, ele chega a tornar a experiência pesada. Cláudio provoca tanta repulsa que deixa de ser um vilão carismático para se tornar alguém simplesmente difícil de suportar. Não é o tipo de personagem que o público ama odiar; é alguém que desperta um desconforto constante.
Por outro lado, Maria Fernanda Cândido entrega uma atuação memorável, transmitindo toda a fragilidade emocional de Marília sem perder a dignidade da personagem.
Ao final, não acredito que Felizes para Sempre? ofereça uma resposta definitiva para a pergunta do título. Mas, para mim, ela deixa claro que a felicidade não está no dinheiro, no poder ou na aparência de uma família perfeita. Ela parece existir apenas quando há amor verdadeiro, autoestima e relações construídas sobre afeto e cuidado. Talvez não exista um único "felizes para sempre", mas sim diferentes formas de encontrá-lo.
Nota. 4,2⭐
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