Querido leitor,
Acabei de ler meu terceiro livro de Susan Hill. Mais uma obra que me surpreendeu por ter me envolvido e me comovido profundamente.
O livro conta a história de John Hilliard, que, após passar uma temporada em casa, retorna à Primeira Guerra Mundial trazendo um enorme pessimismo em relação ao conflito e um desprezo ainda maior pela vida familiar. Isso gera uma profunda depressão no rapaz, interrompida apenas quando ele conhece David Barton.
Barton é outro jovem soldado, completamente diferente de Hilliard. Para ele, tudo parece belo, até mesmo a guerra e a vida nas perigosíssimas trincheiras. Aos poucos, Barton ajuda Hilliard a desabafar sobre tudo o que o oprimia. Apresenta-lhe livros, músicas e até sua família, que o trata de forma muito diferente da família fria e distante de Hilliard, algo que fica evidente nas cartas que ambos recebem.
Entretanto, o contato com a verdadeira face da guerra faz Barton presenciar horrores que jamais havia imaginado. A experiência o traumatiza profundamente e começa a transformá-lo.
Ao vê-lo retornar da missão, Hilliard percebe o quanto ama o amigo e teme que aquela guerra destrua a pessoa alegre e sensível que Barton sempre foi.
Então, os papéis se invertem.
Agora é Hilliard quem incentiva Barton a desabafar e a enfrentar os traumas vividos no campo de batalha.
Os dois passam a demonstrar um enorme afeto um pelo outro e enfrentam a guerra procurando aproveitar cada momento que ainda lhes resta juntos.
Mas, conforme a batalha se aproxima do acampamento, torna-se impossível escapar.
Ambos seguem para o combate.
Barton desaparece.
Hilliard é gravemente ferido e perde uma das pernas.
Barton é dado como morto e, depois da guerra, Hilliard aceita o convite da família Barton para passar um tempo com eles, preferindo aquele ambiente acolhedor ao retorno para sua própria família.
Resenha
O livro apresenta, de forma bastante lenta, o encontro entre dois homens que se amam e transformam um ao outro positivamente enquanto vivem um dos maiores horrores que um ser humano pode enfrentar: a guerra.
Para mim, a questão da depressão masculina e da dificuldade dos homens em lidar com seus sentimentos se sobressai até mesmo aos temas da guerra e do possível romance entre os protagonistas.
Susan Hill descreve, com seu estilo detalhista, cada sentimento vivido pelos personagens nesse verdadeiro filme de terror que é um campo de batalha.
Os traumas, os gatilhos psicológicos e as consequências que eles deixam são construídos camada por camada.
Ao mesmo tempo, ela mostra como parte desse sofrimento pode ser amenizado quando encontramos alguém disposto a nos ouvir.
Somos seres carentes por natureza.
Precisamos dividir nossos fardos.
Não apenas os de uma guerra, mas também os da vida cotidiana.
Ainda hoje, muitos homens crescem ouvindo que não devem chorar, demonstrar fraqueza ou compartilhar seus sentimentos.
Com isso, acabam carregando pesos enormes sozinhos.
Não é responsabilidade de outra pessoa resolver nossos problemas.
Mas é importante termos alguém com quem possamos conversar, receber apoio e enxergar uma segunda perspectiva.
O livro transmite essa ideia com enorme sensibilidade.
Ao mesmo tempo, Susan Hill deixa em aberto a natureza do relacionamento entre Barton e Hilliard.
Fica a dúvida se estamos diante de um amor romântico ou de um vínculo construído pela gratidão, pela amizade e pelo companheirismo em um momento extremo da vida.
Foi lindo acompanhar a visão inocente e otimista de Barton em meio a tanto horror.
E foi doloroso vê-la sendo destruída pela guerra.
O medo de Hilliard ao perceber que a pureza do amigo estava desaparecendo é profundamente comovente.
Por se tratar de Susan Hill, eu já esperava um final triste.
Mesmo assim, o desaparecimento de Barton foi extremamente chocante.
O pior é que Susan Hill não entrega respostas absolutas.
Sentimos exatamente o que Hilliard e a família Barton sentem: a esperança de que talvez ele ainda esteja vivo.
Ela consegue transferir esse sentimento para o leitor com enorme habilidade.
Gostaria que o relacionamento entre os dois tivesse sido desenvolvido de forma mais explícita?
Sim.
Mas talvez isso diminuísse justamente a força da proposta da autora, que parece interessada em mostrar acima de tudo o companheirismo, a confiança e o apoio mútuo que surgem quando dois homens encontram alguém com quem finalmente conseguem dividir suas dores.
No fim, Strange Meeting apresenta uma temática completamente diferente das outras obras de Susan Hill que li, mas conserva aquilo que mais admiro nela: sua capacidade de provocar choque, luto e reflexão.
Nota: ⭐⭐⭐☆☆ (3,2/5)

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