A capa - Joe Hill

 




Querido leitor,


Li o conto A Capa, escrito pelo autor Joe Hill.


No conto, temos Eric, que, ainda criança, com um cobertor felpudo, fabrica uma capa de super-herói e pula de uma árvore. Eric poderia dizer que tudo não passou de imaginação: que conseguiu voar com a capa durante algum tempo antes de cair nos galhos e se machucar. Mas seu irmão, Nick, viu tudo.


E Nick tenta pular com a capa também. Só que não consegue voar e acaba se esborrachando, precisando passar por sérios procedimentos médicos por causa dos ferimentos no rosto. A mãe, perturbada com o ocorrido, diz que mandou incinerar a capa.


Anos se passam.


Eric se casa com Angie, uma ex-namorada de Nick. No início, ela se encanta com aquela aparente inocência infantil de Eric. Só que, com o tempo, percebe que aquilo que parecia uma inocência bonita é, na verdade, uma enorme irresponsabilidade.


Eles se separam.



Eric continua vivendo com a mãe e, cada vez mais, demonstra não querer assumir os compromissos da vida adulta. Envolve-se com bebidas, não consegue se manter em um emprego e também não ajuda a própria mãe.


Até que, certo dia, ele encontra a capa novamente dentro do armário.


E consegue voar.


E o que ele faz?


Vai até a casa da ex-esposa e a fascina novamente com a possibilidade de voar em seus braços. Mas, no final do conto, ele a joga das alturas para se vingar.


Eric não se transforma no herói que imaginávamos.


Ele assume, definitivamente, o papel de vilão.


Resenha


Acho que vocês já podem imaginar que eu não gostei muito do conto.


Mas não porque ele seja mal escrito ou porque sua estrutura seja ruim. Pelo contrário: a ideia é muito boa e a história é muito bem construída.


O problema foi a conclusão.



Eu sei qual é a mensagem que Joe Hill quis passar. E, justamente por entender a mensagem, consigo reconhecer que o final funciona muito bem dentro da proposta do conto.


Diferentemente do que pode parecer à primeira vista, a capa não representa simplesmente a beleza da infância, da imaginação ou da inocência.


Ela representa a necessidade de permanecer preso à irresponsabilidade infantil.


Eric não quer carregar as responsabilidades da vida adulta. Ele quer continuar vivendo como aquela criança que acreditava que poderia simplesmente colocar uma capa e sair voando.


É quase uma síndrome de Peter Pan, só que levada para um lado muito mais sombrio.


E acho interessante a forma como Angie enxerga Eric.


Ela se apaixona por aquela aparência de inocência e espontaneidade. Só que, depois, percebe que aquilo que parecia ser uma qualidade infantil bonita também escondia uma incapacidade de assumir responsabilidades.


É como se a capa representasse a parte infantil que Eric se recusa a abandonar.


E existe uma diferença enorme entre manter um pouco da criança que fomos dentro do adulto que nos tornamos e simplesmente se recusar a crescer.


Eu, particularmente, acho até bonito manter um pouco desse mundo cor-de-rosa da infância. Acho que a vida adulta já é difícil demais para abandonarmos completamente nossa capacidade de imaginar, brincar e enxergar alguma magia nas coisas.


Mas Eric não usa a infância para tornar a vida adulta mais leve.


Ele usa a infância como desculpa para não enfrentar a vida adulta.


E é aí que a capa deixa de ser algo bonito e passa a ser assustador.


O que mais me incomodou foi justamente o final.


Eu fiquei esperando algum tipo de consequência para Eric. Algum aprendizado. Alguma espécie de punição ou, pelo menos, um momento em que ele percebesse no que havia se transformado.


Mas isso não acontece.


Ele ganha.


Ele tem o poder.


Ele consegue voar.


E usa esse poder para matar.


Como leitor, eu queria outra coisa.


Queria que Nick tivesse algum papel maior nessa história. Talvez que ele também tivesse encontrado a capa novamente. Talvez que ressurgisse como uma espécie de herói e precisasse enfrentar o próprio irmão.


Uma continuação em que Nick aparecesse com uma segunda capa para enfrentar Eric seria muito divertida. 


Mas, obviamente, esse não é o conto que Joe Hill escreveu.


É uma história curta. Um pequeno recorte da vida desses personagens.


E, diferente de alguns outros contos da coleção, A Capa realmente possui uma conclusão. E é uma conclusão muito bem construída.


Só não é a conclusão que eu queria.


E talvez seja justamente por isso que eu tenha ficado tão triste quando terminei.


Eu queria que aquela capa significasse a possibilidade de um menino voar.


Joe Hill preferiu mostrar o que acontece quando alguém recebe a capacidade de voar e escolhe usá-la para alimentar o pior que existe dentro de si.


E, infelizmente, dessa vez eu queria muito mais o herói do que o vilão.


Nota: 3,5⭐


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