Art Pop - Joe Hill

Querido leitor,

Acabei de ler o terceiro conto do livro O telefone preto e outras histórias, de Joe Hill, chamado “Pop Art”.

A história conta sobre o protagonista, que tem, na infância, um amigo que nasceu com uma rara condição: ele é um garoto inflável, como um balão de ar.

Na escola, Art sofre bullying, mas é acolhido pelo protagonista, que vê nele um refúgio para os problemas de casa, causados pelo pai, que foi abandonado pela esposa.



O pai cuida sozinho do protagonista. Aposentado e sofrendo de enxaqueca, desconta no garoto todas as suas frustrações, implicando inclusive com a amizade diferente do filho.

Quando o pai arruma um cachorro pitbull, os garotos passam a ir para a casa de Art, mesmo sendo mais longe da escola.

Os pais de Art são acolhedores e amorosos, diferentes do pai do protagonista.

A amizade é assombrada o tempo todo pelo medo da morte de Art, que, por ser mais frágil, está sempre correndo o risco de morrer.

Até que, um dia, o protagonista precisa ir ao dentista e esquece que havia combinado de encontrar Art em casa.

O pitbull do pai foge, e Art acaba se refugiando em uma van. Porém, o calor de ficar preso dentro do veículo durante várias horas prejudica o garoto.

Ele agora precisa ser assoprado várias vezes ao dia e está morrendo.

Art então pede ao protagonista que o solte ao céu.

Vários anos depois, o protagonista encontra uma garota com a mesma condição e se casa com ela. O conto termina com ele contando à esposa sobre seu amiguinho de infância.

Resenha

Que conto mais lindo! Tantos significados e tantas camadas.

A fragilidade da amizade na infância é um dos pontos centrais da história. Como uma amizade infantil, principalmente aquela que nasce na escola, pode ser frágil. Uma amizade forte, que significa tanto, pode se desfazer porque o coleguinha mudou de sala, de escola, de cidade ou, às vezes, simplesmente porque os pais não deixam mais as crianças serem amigas.



A vida infantil é constantemente influenciada pelos adultos, e acho que essa é uma das principais metáforas do conto. Os pais ou responsáveis podem interferir na vida dessas crianças, seja por cuidado ou por falta dele, e elas acabam tendo que assistir às suas amizades e escolhas sendo influenciadas pela vontade desses adultos, que muitas vezes nem estão pensando no que é melhor para elas.

Vejo isso principalmente na influência do pai do protagonista, que, por causa da própria dor, das enxaquecas e da perda da esposa, acaba descontando tudo no filho e na amizade dele com Art.

Tem também, em primeiro plano, a metáfora da morte.

Acho que essa ficou ainda mais clara para mim. Como a vida é frágil.

Não dá para ler essa história e não imaginar que Joe Hill tenha uma compreensão muito profunda da perda e da fragilidade humana.

A sensação é tão palpável que parece que realmente basta um galho furar a gente para o ar sair e irmos embora. A vida é frágil assim. E esse conto nos faz perceber isso e dar mais valor às pessoas que amamos.

A maldade infantil também é algo que relembramos nesse conto. Às vezes esquecemos como a escola pode ser difícil. Parece que, naquela época, éramos feitos de plástico mesmo. Qualquer coisa nos furava e nos deixava tristes. Estava cheio de garotinhos malvados com gravetos e tachinhas, prontos para nos furar.

E é interessante como o garotinho frágil, o balão, era rodeado de amor e carinho, enquanto o garotinho de “casca grossa”, duro na queda e que sabia se defender, era justamente aquele que recebia menos cuidado do pai.



O final da história também nos faz teorizar sobre suas metáforas. Deixar a pessoa que amamos voar porque, querendo ou não, a vida é frágil e curta. E o sonho de Art era conhecer o espaço sideral.

Temos também a esposa do protagonista, que possui a mesma condição de Art. Isso já abre espaço para um “Pop Art 2”.

Uma esposa de plástico, de ar, que pode ser furada a qualquer momento. Mas ela já vem cheia de remendos, carregando os estragos da vida antes de conhecer o protagonista.

E os sentimentos dessa esposa de plástico?

É impossível não fazer uma comparação, ainda que irônica, com as bonecas sexuais. Será que o protagonista não poderia acabar tratando-a dessa maneira? Ou será que ele enxergaria seus sentimentos e sua fragilidade, mesmo quando ela fosse furada e o ar começasse a sair de dentro dela, como fez com Art?

E os easter eggs escondidos nos contos relacionados ao seu pai, Stephen King, são muito bons.

Não teve como não ver a cena de Art preso na van e não lembrar de Cujo.

Joe Hill abriu um universo cheio de metáforas para esse mundo e conseguiu fechar a história com um final que permanece aberto para novas interpretações, mas que, ao mesmo tempo, dá um encerramento lindo para Art.

Adorei as metáforas. Adorei a realidade da história.

Nota 4,5 




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