Querido leitor,
Li o conto de Joe Hill, Os Filhos de Abraão.
O conto narra a história de Max e Rudy, que vivem isolados em uma região onde o pai, Abraham, trabalha como médico. Abraham tem uma verdadeira compulsão por manter os filhos isolados e não permitir que saiam à noite.
Tal severidade não impede os garotos de entrarem no escritório proibido do pai.
Assim, Max descobre, por meio de fotografias, que o pai matava pessoas acreditando que elas eram vampiros.
O pai os pega em flagrante e assume que é Abraham Van Helsing, que a mãe deles era Mina e que o primeiro marido dela era Jonathan.
Mas, quando são pressionados pelo pai a terminar de matar uma vizinha e Max vê o desespero do irmão, ele põe fim à vida do pai, ironicamente da mesma forma como o pai matava os supostos “vampiros”.
Resenha
Foi surpreendente para mim reencontrar essa história nos contos de Joe Hill. Eu vi o filme inspirado no conto, com o nome de *A Mão do Diabo*, há muito tempo. Tinha achado o filme perturbador, mas não reconheci que se tratava de uma continuação da história de *Drácula*, de Bram Stoker. Acho que, na época, não reconheci os nomes.
Mas a perturbação que senti vendo o filme veio da mesma forma lendo o conto. Joe Hill faz a gente sentir aquele medo e aquela apreensão das crianças.
Nunca tive pais apreensivos. E pensar em sentir medo do nosso cuidador, da pessoa que deveria nos tratar com carinho, sendo justamente a ameaça, deve ser horrível.
As metáforas da história, por trás de toda a camada de Bram Stoker, do gore e do medo psicológico, estão na contestação dos dogmas patriarcais.
Abraham seguia seus dogmas, fosse por loucura ou não, e exigia dos filhos que seguissem essas mesmas regras. E o processo de um filho homem crescer, quebrar esses dogmas e criar os seus próprios é muito difícil.
Por mais que meus pais fossem muito maleáveis nesse sentido, tive certa dificuldade para criar meus próprios dogmas dentro da minha família. Imagina para quem tem pais abusivos e tóxicos.
A frase que Abraham usa também me marcou muito. Porque conheço pais apreensivos que usam essa frase para manipular os filhos:
"Você vê o que tenho que fazer por vocês.”
É uma culpa patriarcal usada para oprimir os filhos.
Acho que Joe Hill, mais uma vez, veio mostrar a força que existe na relação entre pai e filho. O limite entre o ensinamento e a opressão. Até onde vai a necessidade do filho pelo pai e do pai pelo filho? Como fazer esse desligamento?
Foi por meio do gore que Hill quis mostrar isso? Sim.
Mas tem coisa mais assustadora do que esse desligamento do pai em relação ao filho, ou do filho em relação ao pai?
Nota ⭐ ⭐ ⭐ ⭐


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