Querido leitor,
Vi neste final de semana o filme da Netflix Criaturas Extraordinariamente Brilhantes. Um filme para o qual a Netflix fez um marketing gigantesco, prometendo uma história emocionante que nos faria chorar muito. E, pior, fez mesmo.
Diferentemente de muitos outros filmes, esta não é uma história sobre um casal ou problemas amorosos.
O filme conta a história de uma faxineira, Tova, que, após a morte trágica do filho, que todos acreditavam ter sido um suicídio, refugia-se em seu trabalho como faxineira de um aquário público. Lá, ela escapava das fofocas humanas através das amizades que desenvolvia com os seres marinhos, particularmente com Marcellus, o polvo.
Sendo o narrador da história, Marcellus nos descreve como Tova começa uma amizade com Cameron, seu substituto temporário após ela se acidentar ao tentar ajudá-lo durante uma de suas tentativas de fuga do aquário, um dos primeiros sinais de que o polvo estava chegando ao fim de sua vida.
Cameron é um jovem que chega à cidade em uma van, tentando encontrar o pai que nunca conheceu. As evidências indicavam que ele morava naquela pequena cidade.
A amizade entre Tova e Cameron, inicialmente construída enquanto ela tentava ensiná-lo a limpar o aquário adequadamente, transforma-se em uma relação na qual ambos procuram ajudar um ao outro a recomeçar a vida após tantas tragédias.
Marcellus também se torna parte dessa amizade, ouvindo os desabafos dos dois.
Tova vence o luto pelo filho e abre o coração para as amizades das pessoas da cidade, que não desejavam apenas fofocar, mas também ajudá-la. E um desses amigos acaba se tornando um possível novo amor.
Cameron, por sua vez, tentava construir uma vida além da busca frustrada pelo pai desaparecido. Descobre que o homem que acreditava ser seu pai era apenas um amigo gay de sua mãe, e não um antigo relacionamento amoroso. Nesse processo, conhece Délia, uma jovem que parecia perfeita para ele começar uma nova vida. Porém, ao descobrir que ela tem um filho adolescente, Cameron se assusta e se afasta. Tova e Marcellus o ajudam a enxergar que ele pode, sim, construir uma vida ao lado dela.
Quando descobre que o homem que imaginava ser seu pai não era realmente seu pai, Cameron joga no aquário da enguia — a grande inimiga de Marcellus — o anel com as iniciais gravadas que carregava como pista de sua origem. Em seguida, decide deixar a cidade.
Marcellus, usando suas últimas forças, entra no aquário da enguia para recuperar o anel e ajudar seus amigos, Cameron e Tova.
Já muito debilitado, ele é levado por Tova ao oceano, seu verdadeiro lar. Antes de partir, deixa o anel com ela, permitindo que descubra uma verdade muito bonita.
O pai de Cameron era, na verdade, o filho falecido de Tova. Seu filho não havia morrido infeliz, como muitos acreditavam. Ele tinha um grande amor, a mãe de Cameron, e sabia da existência do filho.
Tova e Cameron passam então a viver cercados pelos amigos da cidade e unidos como avó e neto.
Resenha
O filme, estrelado por Sally Field, atriz que me traz tanta nostalgia por Uma Babá Quase Perfeita e por interpretar a Tia May nos filmes de Homem-Aranha, além de contar com Lewis Pullman, entrega uma obra extremamente peculiar e bonita.
A história apresenta uma linda reflexão sobre a amizade e sobre como a dor, às vezes, nos faz esconder do mundo e das pessoas que desejam o nosso bem.
Tova acreditava que todos queriam apenas falar mal dela ou fazer fofocas. E é verdade que muitos gostam de contar histórias. Faz parte da natureza humana. Mas também faz parte da nossa natureza acolher, ajudar e estender a mão quando alguém precisa.
Precisamos das pessoas. Precisamos de ajuda, de conselhos, de nos sentirmos queridos e amados. Às vezes, essas amizades duram pouco tempo e acabam se transformando apenas em lembranças. Mas, naquele momento, foram reais e importantes.
Foi Marcellus quem ajudou Tova a perceber isso.
As pessoas são difíceis. Muitas vezes queremos nos esconder delas. Mas as pessoas também são criaturas extraordinariamente brilhantes. E é justamente isso que o filme nos surpreende ao mostrar. Durante boa parte da história, acreditamos que o título se refere ao polvo narrador. No final, percebemos que talvez ele esteja falando sobre os próprios seres humanos.
Acho que esta é a principal mensagem do filme.
A atuação de todo o elenco foi brilhante. Sally Field traz uma leveza impressionante aos diálogos. Algo que parece cada vez mais raro em produções atuais, frequentemente preocupadas com efeitos especiais e cenas grandiosas, mas que nem sempre encontram espaço para a poesia das palavras.
Talvez o filme seja um pouco lento. Mas acredito que essa lentidão seja uma de suas qualidades. Ela nos ensina a prestar atenção à história, aos personagens e à amizade. Também nos lembra do valor de protagonistas mais velhos, algo cada vez menos comum nas produções atuais.
Tova me fez lembrar muitas pessoas queridas que passaram pela minha vida. Pessoas mais velhas e mais sábias que, mesmo sem formação acadêmica, me ensinaram lições valiosas.
Gostaria de dedicar mais tempo a pessoas assim. Mas a correria do dia a dia nem sempre permite. Talvez porque criemos tantos mecanismos para nos esconder dos outros que acabamos esquecendo como derrubar essas barreiras.
Às vezes, precisamos de um polvo falante para nos lembrar disso.
Nota: 4,2 ⭐

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