Querido leitor,
Terminei de ler o livro David Copperfield, de Charles Dickens.
Peguei esse livro para ler na escola, pensando que fosse uma biografia do ilusionista. Mas desisti da leitura por causa do curto prazo que a biblioteca dava para devolvê-lo.
Mais tarde, descobrindo quem era Charles Dickens e conhecendo seu grande portfólio de livros, recomecei por Oliver Twist.
E agora, seduzido pelo grande número de booktubers que vêm incentivando a leitura de clássicos, resolvi partir para David Copperfield.
O livro conta a história de David Copperfield.
Ele perdeu o pai antes mesmo de nascer.
A mãe o cria ao lado da babá Peggotty, com todo amor e carinho.
Mas, quando a mãe resolve se casar novamente, tudo muda. O novo padrasto, Murdstone, junto com sua irmã, a srta. Murdstone, manipula a mãe de David, Clara, fazendo-a acreditar que demonstrar tanto amor por uma criança a estraga.
David vai para um colégio interno. Lá conhece um colega chamado James Steerforth. O garoto, mesmo tendo atitudes repreensíveis, deixa David encantado com sua beleza e ousadia.
Nas férias de verão, em vez de voltar para casa, vai passar um tempo com a família de Peggotty, sua babá.
Lá, David conhece o sr. Peggotty, irmão da babá, que mora em um barco atracado, com dois sobrinhos, que ele criou como filhos, e a senhora Gummidge, sua cunhada viúva.
David adora suas férias, mas, ao retornar para sua vida, descobre que sua mãe morreu, junto com o irmão recém-nascido.
Seu padrasto e a irmã dele o tiram do colégio interno, e David passa a trabalhar, ainda na infância, em uma fábrica, morando de favor na casa da família Micawber. Wilkins Micawber é um sujeito muito bom, mas cheio de dívidas, sem saber lidar com a vida financeira da família.
Ele acaba indo para a prisão por dívidas, levando a família junto, como era permitido na época.
David, sem uma casa para morar e sendo obrigado a trabalhar ainda criança, resolve fugir para a casa de uma tia rica.
Betsey Trotwood é uma senhora muito bondosa, mas meio doidinha. Ela ajuda David a voltar a estudar e a se tornar um bom advogado, com a ajuda da família Wickfield.
David cresce e se torna um advogado de sucesso. Também reencontra seu amigo Steerforth.
Ainda encantado pelo rapaz, David o leva para conhecer a família de seus grandes amigos, os Peggotty.
Steerforth acaba seduzindo e desgraçando a vida de Emily, uma das sobrinhas do sr. Peggotty.
Emily estava prestes a se casar com Ham, outro sobrinho de quem o sr. Peggotty cuidava como filho. Porém, seduzida pela boa vida que Steerforth lhe prometera, foge com ele.
Ela passa alguns bons momentos viajando ao seu lado. Mas logo Steerforth se cansa dela e, para, em suas palavras, "salvar sua honra", oferece um de seus empregados para se casar com ela.
Emily foge.
O sr. Peggotty resolve partir em busca da sobrinha. Em nenhum momento para julgá-la, mas para acolhê-la e salvá-la da morte social provocada por Steerforth.
Ele chega até Steerforth, mas é humilhado por Rosa Dartle, amiga da mãe dele.
Paralelamente à busca do sr. Peggotty por Emily, David encontra o amor nos braços de Dora, filha de seu patrão.
Ele planeja conquistar uma boa posição profissional para ficar à altura da filha do patrão.
Mas sua tia, que havia investido tudo com a ajuda dos Wickfield, acaba sendo vítima do trapaceiro Uriah Heep e perde toda a sua fortuna.
David fica ainda mais distante da posição necessária para se casar com Dora.
Mas o pai dela morre e suas tias, que passam a ser suas responsáveis, gostam muito de David e permitem o casamento, mesmo ele sendo apenas um trabalhador.
Por mérito próprio, David cresce na vida, tornando-se advogado e escritor.
Dora se mostra uma esposa mimada e infantil. Mesmo assim, faz David muito feliz.
O reencontro com outro colega dos tempos do colégio interno muda sua vida.
Tommy Traddles retorna e se torna um grande amigo de David. Ele o ajuda a atravessar os momentos mais difíceis de sua vida.
Entre eles, a doença de Dora e sua viuvez.
Além disso, Traddles e David ajudam a família Wickfield a se livrar do trapaceiro Uriah Heep.
Heep, além de trapacear nos negócios do sr. Wickfield, obriga Agnes, sua filha e grande amiga de David, a aceitar um noivado com ele.
Também transforma a família Micawber em praticamente seus escravos, acumulando sobre eles dívidas impagáveis.
Micawber o denuncia e, junto com David e Traddles, arma um plano para desmascará-lo.
Ao mesmo tempo, o sr. Peggotty descobre onde Emily está. Eles se reencontram e partem para o exterior, em um navio, junto com a família Micawber.
Em uma coincidência, durante um passeio na praia em um dia de tempestade, David vê Ham entrar no mar para salvar um homem que estava se afogando.
Os dois acabam morrendo diante de seus olhos.
E, para sua surpresa, o homem salvo era justamente Steerforth.
Resta a David ir contar à mãe de Steerforth que seu filho morreu.
Como sempre, Rosa Dartle está presente. Ao saber da morte de Steerforth, ela entra em desespero e revela que era apaixonada por ele desde a juventude.
David também reconhece para si mesmo o quanto amava Steerforth.
Após passar por uma situação tão dolorosa, David parte para uma viagem pelo mundo. Com o tempo, percebe que sempre teve ao seu lado uma amiga que seria uma excelente esposa.
Agnes Wickfield torna-se sua segunda esposa, dando-lhe filhos e uma vida feliz..
Resenha
O livro, para mim, é uma obra muito complexa e surpreendentemente moderna, trazendo temáticas extremamente contemporâneas.
Acho que o tema principal é que, graças à inocência de David durante toda a história, ele passa de um personagem observador em um mundo cheio de pessoas nas quais não deveria confiar. Mas, guardado por Deus, graças à sua pureza, consegue permanecer no caminho certo, alcançando, no fim, a felicidade.
Primeiramente, temos Steerforth. Em uma paixão arrebatadora, David se vê envolvido por esse rapaz, que usufrui da vida de forma egoísta. Ainda assim, David o vê como alguém sublime, abrindo para ele as portas da família Peggotty, que representa a pureza em forma de bondade e acolhimento. Ele abre a porta desse lar para o diabo, por pura inocência.
Existem outros pormenores que considero pistas de um possível amor homossexual de David por Steerforth.
Como quando ele se despede de Steerforth antes de sua fuga com Emily. David não sabia que nunca mais veria o rapaz vivo, nem que ele fugiria com a pobre garota. Mesmo assim, ficou observando-o dormir e admirando sua beleza por horas.
Também há o fato de David comentar diversas vezes, desde a infância, como Steerforth era bonito.
Mas esse amor, inaceitável para a época, acabou sendo camuflado sob camadas e mais camadas de uma história que oferece muitos outros sabores ao longo de sua narrativa tão rica.
Penso que David Copperfield é um livro extremamente complexo, cheio de camadas e surpresas, que me impressionou não apenas pelas reviravoltas inesperadas e por suas possíveis leituras contemporâneas, mas também por apresentar uma linguagem e temas que ainda soam muito atuais.
É um livro antigo, mas que aborda assuntos muito fortes, bonitos e importantes.
No início da história, vemos David sofrendo abusos e maus-tratos nas mãos do padrasto.
Assim que sua mãe se casa novamente, Murdstone e sua irmã invadem uma vida cheia de cuidados e amor para trazer severidade, regras e maldade, obrigando uma criança a crescer em um ambiente que corrompe sua inocência.
Murdstone toca justamente naquilo que pessoas manipuladoras conseguem atingir com mais crueldade: o amor que a mãe de David sente pelo filho. Ele destrói essa relação e quebra uma inocência e uma pureza que, para mim, lembram muito o amor que sinto pelos meus próprios filhos. O que Murdstone faz é de tamanha monstruosidade que, para mim, ele se torna um dos maiores vilões da literatura.
Vejo muitas pessoas querendo se intrometer na educação que dou aos meus filhos, questionando a liberdade e o amor com que procuro criá-los. Acredito que é justamente esse amor que gera o respeito necessário para uma boa educação, e não regras frias, convenções ou métodos que considero ultrapassados.
Mas David sofre muito mais do que violência psicológica. Após a morte da mãe, ele ainda é obrigado a trabalhar quando criança.
Seu medo de nunca conseguir sair daquela situação é tocante. E a coragem que encontra para fugir em busca da tia possui um significado enorme. David sempre foi uma pessoa acomodada. Aceitava as situações e seguia em frente até chegar ao seu limite. Quando finalmente chegou a esse limite, arregaçou as mangas e foi atrás da única pessoa que poderia lhe oferecer uma nova oportunidade: sua tia.
Antes de partir para a próxima etapa da vida de David, preciso falar sobre o contraste entre a vida que ele levava com o padrasto e o pouco tempo que passou com o sr. Peggotty e sua família.
Durante as férias da escola, antes da morte da mãe, David conhece a família de Peggotty.
Esse núcleo da história é extremamente bonito.
Mesmo quando, anos depois, Emily foge com Steerforth, o sr. Peggotty larga tudo para procurá-la.
E não sai em busca dela para julgá-la, como todos faziam, mas para confortá-la e continuar a amá-la.
Vi muito de mim nesse amor de pai. Em diversas atitudes do sr. Peggotty, eu pensava: "Eu faria exatamente a mesma coisa."
Seu jeito de conversar e de cuidar das pessoas que ama é muito bonito.
No final do livro, depois de encontrar Emily e decidir partir com ela para uma nova vida, ele resolve deixar a senhora Gummidge com uma boa aposentadoria para que alguém pudesse cuidar dela.
Mas a senhora Gummidge pede para ir junto, mesmo sabendo das dificuldades que enfrentaria.
Sem hesitar, o sr. Peggotty aceita levá-la.
Além disso, também leva Martha, outra mulher rejeitada pela sociedade, que foi fundamental para encontrar Emily.
Por isso, considero o sr. Peggotty um personagem profundamente caridoso, alguém que está sempre aumentando sua família, mesmo que essas pessoas não sejam seus descendentes.
Acredito que a grande mensagem da infância de David seja justamente esta: a pureza gera recompensas. Dickens parece dizer que não devemos ter medo de acreditar nas pessoas, porque ainda existe recompensa para quem mantém o coração bom.
Achei, inclusive, que o primeiro casamento de David com Dora possui alguns aspectos abusivos.
Dora parece usar sua infantilidade como forma de evitar responsabilidades dentro do casamento.
David acaba assumindo praticamente toda a carga da vida a dois, enquanto ela evita qualquer assunto que considere "adulto".
Na minha opinião, o fato de Dora adoecer e morrer não apaga esse comportamento.
Outro tema muito presente no livro é a forma como as mulheres são vítimas dos preconceitos da sociedade.
Primeiramente, temos Emily, que passa a ser completamente julgada por fugir com Steerforth, enquanto ele praticamente não sofre a mesma condenação moral.
Também temos Annie Strong.
David vai trabalhar para o dr. Strong, e todos a julgam apenas porque ela é muito mais jovem que o marido e possui um primo que demonstra interesse por ela.
Todos têm certeza de que ela mantém um caso com esse primo.
No entanto, ao final da história, Annie revela que jamais alimentou esse tipo de sentimento.
Dickens já demonstra, naquela época, como a sociedade costuma julgar o comportamento feminino antes mesmo de conhecer a verdade.
O livro de Charles Dickens me surpreendeu ao apresentar uma verdadeira novela, cheia de camadas e de temas que continuam sendo discutidos até hoje.
Em alguns momentos, achei o ritmo mais lento do que esperava.
Mas também penso que vale discutir como os clássicos estão se tornando cada vez mais difíceis de serem lidos.
Nosso cérebro está cada vez mais acostumado a recompensas rápidas.
Queremos respostas imediatas.
Dickens, por outro lado, constrói suas histórias lentamente, desenvolvendo personagens e situações ao longo de muitas páginas antes de entregar suas grandes revelações.
Talvez essa estrutura já não seja a mais atraente para muitos leitores de hoje.
E, por isso, vamos nos afastando cada vez mais dos clássicos, tornando sua leitura aparentemente mais difícil.
Mesmo assim, Charles Dickens prova que, ainda que utilize uma receita narrativa antiga, uma boa história continua sendo uma boa história.
E um livro realmente bem escrito sempre vale a pena ser lido.
nota: ⭐⭐⭐⭐

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