Corrente de Ferro - Cassandra Clare




Querido leitor,

Terminei de ler Corrente de Ferro, o segundo volume da série As Últimas Horas, a terceira série do universo dos Caçadores de Sombras escrita pela autora Cassandra Clare.

Neste livro, continuamos acompanhando a vida dos jovens da elite dos Caçadores de Sombras londrinos, filhos dos protagonistas da segunda série, As Peças Infernais: Tessa e Will.

Aqui, vemos como foi o casamento de James e Cordelia: um casamento de conveniência que, na verdade, esconde um amor verdadeiro. Os dois são obrigados a assumir esse casamento depois que Cordelia afirma que passou a noite com James, dando a ele um álibi e, ao mesmo tempo, protegendo a própria reputação.




O casamento é lindo. Eles precisam lidar com sentimentos verdadeiros que vão ficando cada vez mais difíceis de esconder em meio à rotina de casados. E, enquanto isso, os dois continuam acreditando que existe apenas amizade entre eles, porque o abençoado do James está sob o efeito da pulseira mágica que Grace Blackthorn colocou nele.

E, neste livro, descobrimos o porquê de toda essa confusão.



Tatiana, mãe de Grace e Jesse, fez um pacto com Belial, avô de James, um demônio poderoso, para destruir os Herondales. Ela os detestava porque os culpava pela morte do pai e do marido.

Ela teve Jesse e pretendia que ele servisse como um hospedeiro para Belial. Mas, quando Jesse passou pelo ritual que deveria transformá-lo em Caçador de Sombras, algo deu errado: a presença demoníaca que havia sido colocada nele fez com que ele morresse.

Tatiana, porém, não desistiu. Ela queria preservar o corpo do filho para que ele continuasse servindo aos planos de Belial.




Belial então passa a usar o corpo de Jesse e começa a assassinar Caçadores de Sombras, roubando suas runas para fortalecer o corpo de Jesse. Ao mesmo tempo, continua interessado em James como seu verdadeiro objetivo.

E aí entra Cortana.




Belial já havia sido ferido por Cordelia com a espada, e ela é uma das poucas pessoas capazes de realmente enfrentá-lo. Enquanto isso, Belial havia tomado Edom, o reino de Lilith, e ela queria recuperar o que havia perdido.

Lilith então arma uma das maiores pegadinhas do livro.

Ela se disfarça de Wayland, o ferreiro lendário que teria criado Cortana, e engana Cordelia para que ela faça um juramento de lealdade. Assim, Cordelia se torna a paladina de Lilith sem sequer saber que está servindo à própria demônia.





Tá, mas até os Ladrões Alegres, como os jovens da elite dos Caçadores de Sombras se chamavam, descobrirem quem era o assassino em série, temos muita água rolando por baixo dessa ponte.

Temos James percebendo, aos poucos, que o amor que sente por Cordelia é muito mais real do que a paixão sobrenatural que acreditava sentir por Grace.

Temos também o pai de Cordelia retornando, e ela descobrindo que ele é alcoólatra.

Os Ladrões Alegres também percebem que Matthew está bebendo em excesso. E descobrimos que ele carrega uma culpa enorme por ter causado, sem intenção, o aborto espontâneo de sua mãe depois de tomar uma poção que acreditava ser um soro da verdade, mas que na verdade era um veneno. Ele passa a carregar essa culpa como se tivesse cometido um assassinato e começa a beber para tentar suportá-la.

Temos também Thomas assumindo para Alastair que se apaixonou por ele em Paris.

Mas Belial invoca outro demônio, Leviatã, para ajudá-lo em sua tentativa de tomar o poder e destruir os Herondales e os Caçadores de Sombras.

Cordelia o enfrenta novamente com Cortana e consegue feri-lo mais uma vez. Só que, dessa vez, ela está presa ao juramento que fez a Lilith.

E, quando Cordelia está completamente destruída por descobrir que se tornou serva de uma demônia, Grace aparece na casa deles tentando recuperar o controle sobre James.

James confronta Grace porque já está imune ao poder de sedução dela. Só que Cordelia entende tudo errado.




Ela ouve apenas parte da conversa e acredita que James ainda ama Grace. Então sai correndo para os braços de Matthew, que sempre teve sentimentos por ela.

E os dois fogem para Paris.

James finalmente entende o equívoco e vai atrás de Cordelia até a estação de trem. Só que, justamente naquele momento, Lucie está envolvida em magia proibida para tentar ressuscitar Jesse, seu namorado fantasma.

James precisa escolher entre correr atrás da esposa ou ajudar a irmã.

E ele escolhe a irmã.

Resenha


E assim termina o segundo livro da série.

E eu achei ruim?

De jeito nenhum.

É isso mesmo que eu gosto na Cassandra Clare: uma boa farofa, tiro, porrada e bomba.

Teve o avô demonão querendo dominar o mundo?

Teve.

Mas eu queria ver mesmo era a Cordelia fazendo o soco do James entender que os dois se amavam.

A cena da Cordelia pedindo para James beijá-la enquanto ele estava amarrado na cama foi muito boa.




Alguém tinha que arrancar aquela pulseira do braço do James. Mas descobrir que a pulseira estava se desfazendo aos poucos, conforme ele e Cordelia viviam momentos verdadeiramente íntimos durante o casamento, foi muito bonito.

E aquele final?

Correndo atrás do trem em movimento!

Que coisa mais clichê!

Mas foi lindo.

Tá! Eu fiquei sem entender por que não dava tempo de ele parar Cordelia e Matthew e depois ir salvar a irmã.

E essa foi, para mim, uma das maiores frustrações do livro.

Ao mesmo tempo, pensando melhor, acho que esse final combina muito com a proposta da história. Cassandra Clare constrói *Corrente de Ferro* em torno de segredos, omissões e falhas de comunicação. A própria autora explicou que o final nasce justamente dessas escolhas e do fato de Cordelia terminar o livro sentindo que perdeu tudo o que queria: James, Lucie, o pai e até a própria identidade como Caçadora de Sombras.

Mas, meu Deus, que raiva!

Porque bastava uma conversa.

**Uma. Conversa.**

Mas temos que aprender a voar.

E, com Cassandra Clare, dá muito para voar.

Acho incrivelmente importante como a autora coloca temas realmente fortes, sérios e importantes no meio da farofa de vampiros, lobisomens, fantasmas e demônios.

Neste livro, principalmente, temos o alcoolismo.

E temos também a desconstrução da imagem que Cordelia tinha do próprio pai. Durante boa parte da vida, ela enxergava Elias como uma figura quase heroica, até descobrir que ele era um homem lutando contra o alcoolismo.

A autora entra no psicológico da personagem para nos mostrar todo o seu sentimento conturbado. E gosto especialmente de como James assume o papel de parceiro nesse momento, ajudando Cordelia a atravessar aquela descoberta e o sofrimento provocado pela relação com o pai.

Também gostei muito da maneira como o alcoolismo de Matthew é tratado.

Ele não bebe simplesmente porque é o “garoto festeiro” do grupo. Existe culpa, trauma, vergonha e uma tentativa desesperada de fugir de si mesmo. E a comparação entre Matthew e Elias torna isso ainda mais interessante.

Ouvi comentários de pessoas que se sentiram confusas pela quantidade de personagens.

Eu, pelo contrário, me senti super inserido na série e nos vários personagens de forma gradual, como se realmente estivesse conhecendo cada um deles e suas histórias aos poucos.

Eu me lembrei muito da série *Elite* e de seus personagens cheios de camadas e nuances. Até a investigação criminal me lembrou a série em alguns momentos.

E, nesse segundo livro, percebi que, mesmo sendo uma grande farofa de fantasia, Cassandra Clare consegue trazer temas importantes, uma boa investigação e um romance muito bem construído.




O mistério dos assassinatos funciona porque a história vai espalhando pistas enquanto James, Lucie, Cordelia e os Ladrões Alegres tentam entender o que está acontecendo. A própria editora apresenta o livro como uma investigação de assassinatos de Caçadores de Sombras em Londres, misturada às várias histórias pessoais dos personagens.

No fim, Corrente de Ferro me entregou exatamente aquilo que eu esperava de Cassandra Clare: romance, drama, demônios, adolescentes tomando decisões questionáveis, personagens emocionalmente destruídos, uma investigação criminal e, claro, uma quantidade absurda de problemas que poderiam ser resolvidos se as pessoas simplesmente conversassem.

Espero que, no terceiro livro, ela só conserte esse final.

Porque fazer o leitor sofrer não é necessariamente errar.

Mas passar raiva na gente?

Aí já é sacanagem.

Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐

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