Querido leitor,
Em O Último Suspiro, conto escrito por Joe Hill e presente no livro O Telefone Preto e Outras Histórias, temos a história de uma família que vai visitar um museu de beira de estrada. O médico, dono do lugar, afirma expor os últimos suspiros das pessoas que viu morrer e que comprou de outros colecionadores.
E esses últimos suspiros pertenciam a pessoas famosas ou anônimas.
O pai e o filho ficam animados com a possibilidade de ouvir os últimos suspiros das pessoas. O médico explica que não se trata especificamente de um som, mas da falta dele.
A mãe fica irritada com aquela explicação fajuta do médico. Para ela, tudo aquilo não passa de uma grande mentira.
Mas, ao escutar o “último suspiro” de uma ex-miss que teve o corpo queimado, ela fica desesperada para sair do museu.
E acaba atropelada na saída.
O filhinho encontra a maleta do médico e a entrega para ele, sabendo que dentro dela estava o aparelho usado para capturar o último suspiro da mãe.
Resenha
Vemos claramente que a falta de crença no impossível por parte da mãe é o que faz dela uma vítima.
Acho que tanto Joe Hill quanto Stephen King trabalham muito com essa ideia de que a pessoa precisa estar aberta à possibilidade do impossível. Quando ela é cética demais e se recusa a acreditar que aquilo pode ser real, acaba se colocando em perigo.
É quase como se, dentro das histórias deles, o mundo sobrenatural existisse independentemente de acreditarmos nele.
E acho que O Último Suspiro trabalha justamente com essa quebra da nossa segurança.
Tem também a parte chocante de o filho pequeno estar tão fascinado por um trabalho tão mórbido. Enquanto isso, a mãe fica cada vez mais incomodada, principalmente porque parece que ninguém ao redor dela considera aquilo tão absurdo quanto ela.
Joe Hill também trabalha bastante com o choque por meio da história da miss que teve o corpo completamente queimado, de uma maneira tão extrema que até partes do corpo acabaram se juntando.
Quer dizer: era para ficarmos perturbados com aquela história.
E funcionou comigo.
Mas a pergunta que não quer calar é:
O que aquela mulher ouviu no último suspiro da ex-miss?
Porque Joe Hill não nos conta.
Sabemos apenas que alguma coisa fez a mãe acreditar que aquelas peças eram reais e que ela precisava sair dali imediatamente. E, nessa fuga desesperada, acabou perdendo a própria vida.
E isso me deixou ainda mais curioso.
Será que ela ouviu alguma coisa que não deveria existir?
Será que ouviu a própria ex-miss?
Será que ouviu alguma coisa sobre o próprio futuro?
Ou será que o mais assustador é justamente não sabermos?
Achei o conto chocante e fiquei surpreso com a morte da mulher, apesar de já sabermos que alguma coisa ruim provavelmente aconteceria.
Mas, comparado aos outros contos que li até agora, achei "O Último Suspiro" mais fraco.
Talvez porque seja bem mais curto.
Senti que a ideia tinha potencial para ser desenvolvida muito mais.
Principalmente porque fiquei querendo saber o que exatamente aquela mulher ouviu.
E talvez essa seja justamente a intenção de Joe Hill: nos deixar com o mesmo vazio que existe naquele último suspiro.
Só que, dessa vez, eu queria um pouquinho mais.
Nota ⭐ ⭐ ⭐


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