A leste do Éden - John Steinbeck


 Querido leitor,

Terminei de ler A Leste do Éden, de John Steinbeck.

Resumo

O livro conta a história dos irmãos Adam e Charles Trask, cuja rivalidade é alimentada pela preferência clara do pai, Cyrus, por um deles. Após a morte do pai, os irmãos se veem diante de uma situação complicada quando encontram Cathy, uma jovem gravemente ferida, à porta de casa.



Adam cuida dela e acaba se casando com a jovem, mesmo sem conhecer todo o seu passado. Charles, por sua vez, já havia se envolvido sexualmente com Cathy, traindo a confiança do irmão.

Cathy é uma personagem que Steinbeck constrói como alguém capaz de praticar o mal de maneira fria e calculada. Desde a infância, ela apresenta comportamentos perturbadores, e seu passado está cercado de violência, manipulação e mistério.

Ela não suporta a vida de casada com Adam e, após dar à luz os gêmeos Cal e Aron, decide abandonar o marido e os filhos. Antes de partir, atira em Adam e o deixa gravemente ferido.

Cathy vai morar em uma casa de prostituição. Lá, conquista a confiança de Faye, a dona do estabelecimento, que passa a tratá-la quase como uma filha. Cathy se aproveita desse afeto, consegue que Faye lhe deixe o bordel e acaba envenenando a mulher para tomar o controle do negócio.



Anos se passam. Adam descobre onde a esposa está e vai procurá-la, mas Cathy não corresponde à esperança de reconciliação. Ela continua rejeitando os laços afetivos e mantém sua vida de manipulação e controle.

Enquanto isso, a morte de Charles e as questões envolvendo sua herança afetam a vida dos Trask. Adam precisa lidar com as consequências de suas decisões, inclusive com a escolha de como tratar a mulher que o abandonou e feriu.

Cathy, que construiu seu poder por meio da prostituição e da chantagem, passa a viver cada vez mais atormentada pelo medo de que seus segredos sejam revelados. A situação se agrava quando uma antiga funcionária ameaça expor o que sabe sobre a morte de Faye.

Com o passar dos anos, Cal e Aron crescem sob a sombra da ausência da mãe. Adam esconde deles a verdade sobre Cathy, e Lee, seu fiel empregado chinês — que há muito deixou de ser apenas um empregado para se tornar parte da família —, participa da criação dos meninos.

Cal cresce com medo de ter herdado a maldade da mãe. Também luta contra o ciúme e a sensação de que Aron é o filho preferido do pai. Aron, por sua vez, é idealista e está comprometido com Abra, mas sua dificuldade de encarar a realidade coloca em risco seus planos para o futuro.

Quando Cal descobre quem é sua mãe e o que ela faz, passa a temer que exista algo de ruim dentro dele que não possa controlar. Mais tarde, em um momento de raiva e ressentimento, revela a verdade a Aron, que fica profundamente abalado e decide se alistar no Exército.



A partida de Aron para a guerra e sua morte deixam Cal tomado pela culpa. Ele passa a acreditar que suas atitudes contribuíram para a tragédia e que talvez tenha sido tão cruel quanto temia ser.

Adam também sofre um derrame, e Lee tenta ajudar Cal a compreender que ele não está condenado a repetir os erros da mãe. A origem familiar, o nome bíblico e o medo de carregar uma natureza má não determinam, por si só, as escolhas de uma pessoa.

No final, a palavra Timshel, pronunciada por Adam, concentra uma das ideias centrais do romance: o ser humano tem a possibilidade de escolher o próprio caminho. Mesmo depois de cometer erros, Cal ainda pode decidir quem deseja ser.

Resenha

Fui atraído para o livro depois de ver o trailer da série da Netflix. As cenas fortes de Florence Pugh interpretando Cathy viralizaram nas redes sociais e despertaram minha curiosidade.

Realmente, o enredo e os diálogos são de arrepiar.

Emocionei-me muito com Adam. Sua bondade e suas atitudes, mesmo diante de tanta injustiça e sofrimento, são tocantes e inspiradoras. Sua maneira de tentar preservar o amor pelos filhos e fazer o que considera correto diante da maldade de Cathy é algo que merece reflexão.



A maldade de Cathy é assustadora. Ver uma mulher agir de maneira tão fria, egoísta e calculista provoca um desconforto especial. Não estamos tão acostumados a ver personagens femininas retratadas dessa maneira. Muitas vezes, procuramos uma razão para explicar a maldade de uma mulher, como se fosse necessário encontrar uma justificativa para suas atitudes.

Até na série, percebi comentários que procuram explicar ou amenizar o comportamento de Cathy. Entendo que o passado e as experiências de uma pessoa podem ajudar a compreender suas atitudes, mas isso não significa que devemos ignorar o sofrimento que ela causa aos outros.

A violência e a crueldade também podem existir em mulheres. O egoísmo de alguém que enxerga as outras pessoas apenas como instrumentos para conseguir o que deseja é perturbador. Cathy quer controlar tudo, e parece acreditar que os sentimentos, o dinheiro e a vida dos outros existem para servi-la.



Outro aspecto que me incomodou foi a sexualização de Cathy ainda na infância. Acho perturbador pensar em uma criança apresentando comportamentos sexuais tão precoces e em como os adultos interpretam esses sinais. Para mim, é importante distinguir um comportamento preocupante de um despertar sexual saudável, sem normalizar situações que precisam ser investigadas e compreendidas.

O livro apresenta Cathy como alguém cuja maldade parece fazer parte de sua própria natureza. A série da Netflix, por outro lado, dá mais espaço à possibilidade de que a violência sofrida e as condições de vida tenham contribuído para a formação da personagem. Entendo a tentativa de explorar essa dimensão, mas tenho dificuldade em aceitar que o passado seja usado para amenizar a responsabilidade de alguém por suas escolhas. Talvez seja possível reconhecer as feridas de uma pessoa sem deixar de responsabilizá-la pelo mal que pratica.

Sim, o livro é complexo e longo. Em alguns momentos, pensei que o autor poderia ter cortado umas quatrocentas páginas. Às vezes, tive a sensação de que Steinbeck estava testando a paciência do leitor: “Você deseja mesmo ler este livro?”

Fiquei particularmente cansado com algumas passagens muito longas sobre o funcionamento dos primeiros automóveis. Entendo que elas ajudam a construir o contexto histórico, mas, durante a leitura, senti que poderiam ter sido mais enxutas.



Ainda assim, valeu a pena continuar. O enredo, os diálogos brilhantes e as análises psicológicas dos personagens compensam boa parte da extensão.

A maldade de Cathy. A bondade extrema de Adam — bondade ou bobice? A dúvida sobre a herança genética de Cal: será que ele herdou a imoralidade da mãe? Essas questões poderiam se tornar cansativas em outros livros, mas Steinbeck consegue transformá-las em reflexões interessantes.

Lee foi um personagem brilhante. Para mim, ele era o professor dessa história, que não é apenas uma saga familiar, mas também uma análise psicológica dos personagens. Lee ajuda a organizar as ideias do romance e a compreender o conflito entre a natureza humana, o passado e a liberdade de escolha. Uma verdadeira aula.

O destino de Cathy foi terrível. E, para mim, que também convivo com problemas reumáticos, sua trajetória despertou uma reflexão pessoal sobre o sofrimento que guardamos dentro de nós. Interpretei sua doença como uma possível manifestação física de tudo aquilo que ela acumulou, de sua consciência e do medo de ser descoberta. Não sei até que ponto essa leitura é correta, mas foi assim que a história me tocou.



Fiquei muito chocado com a história de Faye. A maneira como ela se apaixonou por Cathy, passou a tratá-la como uma filha e desejou acolhê-la em sua vida contrasta violentamente com a forma como Cathy usa esse afeto para benefício próprio. A morte de Faye é ainda mais perturbadora porque mostra como a confiança pode ser explorada por alguém que não corresponde ao amor recebido.

Cathy é uma personagem difícil de esquecer. Considero perigoso transformar todo sofrimento passado em desculpa para o mal que alguém pratica. Há pessoas que nos machucam de maneira profunda, e nem sempre precisamos continuar perto delas para compreender sua história. Algumas destroem a vida dos outros sem necessariamente deixar marcas físicas.

A Leste do Éden foi um dos livros mais difíceis que li neste ano, mas não me arrependo de tê-lo lido.

A história de Adam foi linda e dolorosa. Seu amor pelos filhos, mesmo diante das dificuldades, foi inspirador. Lee também me conquistou por sua sabedoria e por se tornar parte daquela família.

Foi um livro perturbador por causa de Cathy, mas também emocionante por causa de seus questionamentos sobre culpa, herança familiar, bondade e liberdade de escolha.

Não gostei da maneira como interpretei a abordagem da série da Netflix em relação a Cathy. Para mim, humanizar uma personagem não deveria significar suavizar suas atitudes ou transformar seu sofrimento em justificativa para tudo o que ela faz.



Acredito que existem pessoas boas e pessoas capazes de fazer muito mal. Também acredito que podemos escolher nossas atitudes, mesmo quando carregamos dores e dificuldades. O passado pode ajudar a explicar uma pessoa, mas não precisa determinar quem ela será.

No fim, é essa possibilidade de escolha que torna A Leste do Éden tão marcante.

E talvez seja essa a maior lição de Steinbeck: não somos obrigados a repetir o mal que recebemos. Podemos escolher o que fazer com aquilo que a vida nos deu. 

Nota: 4,5 ⭐

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