Querido leitor,
Terminei de ler o livro de contos de Cassandra Clare do universo dos Caçadores de Sombras, Contos da Academia dos Caçadores de Sombras.
Nesse livro, acompanhamos Simon após perder todas as lembranças de Clary, dos Caçadores de Sombras, de Valentim, de Sebastian, dos demônios e, enfim, de tudo o que aconteceu em Os Instrumentos Mortais. Isso aconteceu porque ele abriu mão de suas memórias para Asmodeus, o pai de Magnus, como parte do acordo que permitiu salvar Magnus.
Mas, após retornarem, seus amigos não aceitaram simplesmente perder Simon. Ele estava vivendo como se nunca tivesse conhecido o mundo sobrenatural.
Então, Isabelle e Clary reencontram Simon e, com a ajuda de Magnus, tentam, aos pouquinhos, ajudá-lo a recuperar suas lembranças.
Simon tem a proposta de continuar vivendo sua vidinha simples e humana de sempre ou entrar para a Academia dos Caçadores de Sombras e descobrir novamente que tinha uma namorada supertop, que foi um vampiro diurno e que ajudou a salvar o mundo, no mínimo, umas duas vezes.
Ele entra na Academia dos Caçadores de Sombras, localizada em Idris, a terra dos Caçadores de Sombras, onde pessoas comuns não conseguem enxergar certas coisas que os Nephilim conseguem. É o lugar que prepara os jovens que nasceram com o sangue dos Caçadores de Sombras e também os humanos que desejam se tornar Nephilim, passando pela cerimônia da Taça Mortal.
Mas, logo ao chegar à Academia, Simon, apesar de sua grande fama por ter ajudado a salvar o mundo, descobre que os estudantes e professores vivem em meio a uma grande segregação entre os Nephilim de nascimento, normalmente ligados a famílias tradicionais, e os humanos que ainda vão passar pela transformação.
Simon, por ser famoso, recebe alguns privilégios e, a princípio, não sofre o mesmo preconceito. Mas, assim que percebe os dois lados da escola, decide de que lado quer lutar.
Ele vai viver nos alojamentos mais hostis, destinados aos alunos de origem mundana, e é acompanhado por George, seu colega, que até então não tinha coragem de assumir sua origem familiar.
No meio das aulas, uma das professoras é uma figura famosa do universo dos Caçadores de Sombras: a feiticeira Catarina Loss, que acaba ficando do lado de Simon quando ele provoca toda essa revolta contra a segregação. Além disso, a Academia recebe palestrantes muito famosos.
Inclusive, Isabelle, que está revoltada com o namorado dividido entre ser o velho Simon e esse Simon atual. Ele não entende como conseguiu conquistar uma mulher como Isabelle. Sua autoestima baixa não permite compreender que ela pode voltar a gostar dele, mesmo que ele não seja exatamente o Simon de antes.
Outro palestrante é o pai de Isabelle, Robert Lightwood, que conta como, na época em que Valentim influenciava seus colegas com ideias preconceituosas contra os integrantes do Submundo, seu parabatai revelou que o amava romanticamente. A situação os dividiu e fez Robert repensar suas próprias atitudes, inclusive em relação a Alec.
Um professor intransigente, Delaney Scarbury, usa Helen Blackthorn para dar razão a um novo preconceito que estava surgindo contra as fadas, por causa de sua participação na última guerra.
Helen conta como seu pai e seu tio, ao irem ao reino das fadas, foram enganados. Enquanto Andrew sucumbiu ao amor de uma fada, Arthur foi severamente torturado. O que deveria durar um dia acabou se transformando em vários anos.
Quando os dois foram libertados, a fada deixou os frutos daquela relação: os gêmeos Helen e Mark, para Andrew cuidar.
Durante o ataque de Sebastian, a família de Helen foi atingida. Andrew e sua esposa morreram, deixando vários irmãos pequenos para Helen e Mark cuidarem.
Só que os dois foram impedidos pela Clave, o conselho dos líderes dos Caçadores de Sombras, por serem metade fadas.
Os irmãos tiveram que ficar sob os cuidados do tio, Arthur, até então praticamente desconhecido para eles.
Mark foi viver com um grupo de guerreiros místicos das fadas, a Caçada Selvagem. Helen foi exilada na Ilha Wrangel, acompanhada por sua namorada, Aline.
Helen e Aline se casam.
Temos também uma cerimônia parabatai, na qual Emma aceita se tornar parabatai de Julian Blackthorn, um dos irmãos de Helen.
Enquanto isso, Simon vai aprendendo a ser um Caçador de Sombras e se reaproximando de Isabelle e Clary.
Ele decide se tornar parabatai de Clary, compreendendo que o amor que sentia por ela era, na verdade, um amor de parabatai, e não o amor de um homem por uma mulher.
Temos ainda um bebê feiticeiro sendo deixado na porta da Academia e sendo adotado por Magnus e Alec.
No fim do livro, vemos Simon mais seguro de si e retomando seu relacionamento com Isabelle.
Também temos a cerimônia na qual os estudantes de origem mundana tentam se tornar Nephilim tomando o conteúdo da Taça Mortal.
A insegurança de todos aparece nesse momento, pois eles podem ser rejeitados pelo poder dos Nephilim, o que pode levar os estudantes à morte.
Parece algo distante e quase impossível, apesar do medo dos estudantes. Mas Simon recebe a garantia de que recuperaria todas as suas memórias.
E isso realmente acontece.
Simon recupera suas memórias de forma integral durante a cerimônia. Mas seu amigo George não suporta a transformação e morre de forma triste e dolorosa.
Resenha
Diferentemente dos outros livros de contos, decidi enxergar este como uma história integral. Isso me fez perceber a narrativa como um todo, considerando seus aprendizados e aquilo que Cassandra Clare e suas colaboradoras queriam me transmitir com o livro.
Acho que os mesmos temas presentes nas outras séries do universo dos Caçadores de Sombras aparecem aqui, resumidos e reunidos nessa história.
Transitando de forma criativa por diferentes gerações da série, por meio de contos, palestras e relatos, revemos personagens conhecidos. Isso permite que as autoras deem continuidade a algumas de suas metáforas e aos aprendizados que vêm construindo ao longo dos livros.
O principal tema durante toda a leitura é o preconceito racial. O fato de alguém ser diferente é usado como desculpa para atacar outro grupo e iniciar guerras. E o mais incrível é ver esses líderes saindo de um combate contra determinado preconceito e caminhando em direção a outro.
Depois de Clary conseguir reunir diferentes povos para lutar contra Sebastian, vemos os Caçadores de Sombras caminhando novamente para o preconceito, dessa vez contra as fadas.
Podemos comparar isso ao ser humano que tenta combater o racismo, mas acha justo manter a homofobia. Isso, claro, se ele realmente conseguiu se libertar do preconceito racial. Como no livro, o racismo continua enraizado na sociedade.
Na Academia, mesmo com a aceitação de mundanos e de pessoas ligadas ao Submundo, ainda existe preconceito e uma separação entre grupos.
A autora também quis usar esse livro para nos relembrar os vários universos em que suas séries vão se subdividir.
Eu gostaria muito que a autora criasse um universo focado nos lobisomens. Talvez uma continuação da história de Maia, com o reaparecimento de Jordan.
A definição do amor entre parabatai também é um tema bastante explorado no livro. A retomada da história de James e de como ele conheceu seu parabatai, Matthew, foi muito bonita. Apesar disso, continuo achando Matthew um parabatai fura-olho.
Depois, temos a preparação para a história de Emma e Julian. Já os vimos mais crescidos em outros momentos, e aqui somos preparados para Os Artifícios das Trevas.
Outra coisa que me chocou foi a morte de George. Já deu para perceber que a autora, em meio ao humor, à fantasia e ao romance, gosta de tacar uma cena chocante e dramática no meio de seus livros, meio ao estilo de Shonda Rhimes. E a morte do pobre George me destruiu!
Isso nos faz perguntar: com tanta magia, tecnologias avançadas e regras hiper-rígidas, será que não dava para a Clave criar algo para impedir que isso acontecesse?
Mas, se formos traçar um paralelo com a realidade, veremos que a humanidade, mesmo sendo tão evoluída e tecnologicamente avançada, ainda não conseguiu pôr fim às guerras nem a doenças como o câncer, a AIDS, entre outras que prejudicam o ser humano.
Também percebi que o livro nos faz refletir sobre o que nos define como seres humanos. Simon pensa que são suas memórias. Por isso, acredita que existe um Simon de antes e outro de depois da perda delas.
Mas, ao longo da história, vemos suas lembranças voltando aos poucos e percebemos que sempre existiu apenas um Simon. O que o definia também eram seus princípios e sua índole.
No fim, ele se torna um terceiro Simon: alguém com novas amizades, treinado para ser um Caçador de Sombras e com a junção das duas partes de sua memória.
É engraçado como o grupo social que dá nome às séries de Cassandra Clare é justamente o que mais julga os outros por seus preconceitos e por suas regras inflexíveis. A lei é dura, mas é a lei!
Acho que vai ser muito bom ler a quarta e a quinta séries de livros da autora, agora que tantas regras e histórias já foram estabelecidas. É como se tudo fosse um trilho pelo qual o trem tem que passar.
Nota: 4,5⭐









Comentários
Postar um comentário