Querido leitor,
Acabei de ler o livro O Massacre da Família Hope, escrito por Riley Sager.
O livro narra a história de Kit, que trabalhava como cuidadora de sua mãe, que tinha câncer, e é acusada de facilitar o acesso a remédios controlados, permitindo, assim, que ela se matasse por overdose.
Graças a esse caso, a agência de cuidadores só lhe fornece um trabalho para que ela não seja demitida, e é assim que ela acaba trabalhando na casa da família Hope.
Casa na qual aconteceu o massacre da família Hope há vários anos. Lenora é acusada de matar o pai, a mãe e a irmã. Com o passar dos anos, ela fica paralisada, sem poder falar e podendo apenas mover o braço esquerdo.
E Kit fica responsável por cuidar dela.
A governanta, senhora Baker, lhe apresenta a casa e a história. Ela cuida da mansão com mãos de ferro.
Kit primeiramente aprende a se comunicar com a idosa por meio de sinais de batidas de mão, indicando sim ou não. Mas a máquina de escrever que a antiga cuidadora lhe presenteou mostra que a comunicação entre elas era bem maior.
Mas o mistério ronda a mansão, que cada vez mais se inclinava para o abismo sobre o qual foi construída. O fantasma de Virginia parece assombrar o local.
E os pertences que a antiga cuidadora Mary deixou mostram que ela não foi simplesmente embora. Ela desapareceu.
Lenora, em suas difíceis datilografias, demonstra interesse em contar sua história a Kit. E, por incrível que pareça, provar sua inocência.
Lenora começa a contar que, quando jovem, se relacionou com Ricardo, funcionário da mansão, e acabou engravidando.
Ela conseguiu esconder a gravidez da família por muito tempo. Mas seu pai era possessivo e neurótico, deixando as filhas presas dentro da mansão que ele construiu. E, apesar de ter uma vida depravada com as empregadas da mansão, quando descobre o caso da filha, fica revoltadíssimo.
Ele descobre a gravidez de Lenora graças à segunda filha, Virginia, que era fria e afastada da irmã.
Ela prende a irmã no quarto, para que ela não fuja com o amante, e vai avisar ao pai, enquanto ela tem o filho sozinha no chão do quarto.
O pai pega seu filho e pede para a governanta Baker sumir com ele. Ela desaparece com a criança.
Lenora, revoltada com o pai, vai tirar satisfação com ele, com a faca que cortou o cordão umbilical na mão. Ela encontra o pai pagando Ricardo para que ele fuja e fique longe dela.
Quando está perturbada com a cena, pronta para matar o pai, a mãe aparece. Evangeline Hope, deprimida por abrir mão do grande amor, pai verdadeiro da primeira filha, e vítima das tradições impostas por Winston, torna-se viciada em láudano.
Vendo a filha pronta para matar o pai pelas maldades que ele fez, ela própria toma a faca da filha e põe fim à vida do marido.
Sem forças para se matar, pede e pressiona Ricardo a pôr fim ao seu sofrimento.
Ricardo, pressionado pelo momento, faz o que Evangeline lhe pede e foge, abandonando Lenora.
Lenora, sem o filho e com os pais mortos, decide se enforcar.
É nesse momento que acontece uma das maiores reviravoltas do livro: a mulher que conhecemos durante quase toda a história como Lenora é, na verdade, Virginia.
Virginia sobrevive à tentativa de suicídio com sequelas que a deixam sem falar e aparentemente incapaz de se movimentar. Enquanto isso, sua irmã Lenora assume a identidade de Virginia e passa a ser conhecida como a senhora Baker.
Ou seja: a senhora Baker é a verdadeira Lenora, enquanto a mulher que acreditamos ser Lenora é, na verdade, Virginia.
Ricardo foge, casa-se e tem uma filha: Kit, que acaba sendo justamente a pessoa responsável por cuidar de Virginia décadas depois.
Mary, a primeira cuidadora, estava descobrindo que Ricardo era o culpado pela morte de Evangeline. Por isso, ele a mata, jogando-a do precipício.
Enquanto descobre toda essa história pelas datilografias de Virginia, Kit encontra o corpo de Mary. E, quando retorna para casa, descobre a mala de Mary, com as primeiras datilografias de Virginia, contando para a primeira cuidadora sobre sua verdadeira história.
E agora que Ricardo, pai de Kit, descobre que Virginia e Lenora ainda estão vivas, ele retorna à mansão para finalizar o massacre.
Kit vai atrás.
No meio do confronto entre Kit, as duas irmãs e Ricardo, a mansão finalmente começa a desmoronar.
Eles decidem abrir mão de tanto rancor e ajudam a tirar Virginia da casa junto com Kit. Mas Lenora e Ricardo decidem ficar na mansão, que desmorona no precipício.
Por fim, Kit fica cuidando de Virginia em sua própria casa. E, um dia, ela simplesmente levanta da cadeira de rodas e foge.
Virginia Hope já tinha se recuperado dos problemas gerados pela tentativa de suicídio havia muito tempo e apenas fingia estar paralisada. Com a ajuda de sua neta, Jessie, uma das faxineiras da mansão e que foi amiga de Kit durante toda essa investigação, elas fogem para viajar pelo mundo.
Resenha
Sim, é um livro pequeno, com 395 páginas, mas com muita história.
Um quebra-cabeça que vai entregando suas peças bem aos pouquinhos e com muito suspense, que tentei montar aqui de forma compreensível.
A história se resume a um patriarcado opressor e tóxico, que domina e usa as mulheres a seu bel-prazer, sem pensar nas consequências que causa a essas personagens.
Acho que o resultado de tanta opressão é esse quebra-cabeça que montamos durante a leitura, com muita crise de ansiedade envolvida.
O autor usou de muita conveniência para tantas desventuras infinitas. E isso causou um desconforto em meio à história. Há também um abuso do gore em meio a um drama que poderia ser mais realista, mas que acabou formando uma história meio lúdica.
Se fosse linear, roteirizado como uma novela realista, com sentimentos finais e menos drama, acho que chegaria a um contexto mais maduro. Mas o autor provavelmente não queria isso.
A história me entreteve, sim. Mas muito pela ansiedade de saber o fim dessa história louca, cheia de ramificações e que, tenho certeza, em muitas áreas me fez perder o fio.
Trouxe temas profundos, mas que não se aprofundaram. Fora o patriarcado abusivo de Winston, ainda temos a doçura que existe na função da cuidadora.
Mostrou com tanto carinho a função de Kit com Lenora ou Virginia, que me fez até almejar ter essa profissão. Mas é um dom que vem com a pessoa. E, apesar de achar que, sem dúvida, várias regras dessa função foram violadas durante os relatos do livro, foi fascinante imaginar essa ligação que o cuidador tem com seus pacientes ou clientes.
Penso também na temática da eutanásia. Tanto a mãe de Kit quanto Evangeline chegam a um ponto em que a dor parece tão grande que surge a pergunta: quando a dor chega a tal tamanho, é melhor parar? Pôr um fim?
Achei que o livro exagerou no contexto de tantos personagens pensarem, durante a história, que não havia mais saída. Que era melhor pôr um fim à vida do que continuar. Do que recomeçar. Do que tentar novamente.
Lembrou-me a mesma receita da autora Freida McFadden. E isso não é ruim. É só uma receita.
O livro nos faz pensar em como os pais, concentrados neles mesmos, em seus problemas e em seus desejos, não enxergam os problemas pelos quais as filhas estão passando. Talvez, se tivessem enxergado, o massacre nunca tivesse acontecido.
Nota 3,5 ⭐



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